sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Identidade e paisagem


Preocupante, mui preocupante as observações da senhora Ana Adalgiza Dias, diretora executiva do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RN), sobre o Plano Diretor desta Capital e mais especificamente sobre a Praia do Meio.

Adalgiza Dias declarou, dia desses ao Diário de Natal, que “o plano diretor também atrapalha o desenvolvimento do local” e que a limitação de até três pavimentos para as construções “acaba engessando o potencial econômico”.

Mas, mais preocupado ainda fiquei quando li essa pérola:

“Por questões paisagísticas, não é permitido a existência de nada que possa tirar a visão do Forte dos Reis Magos, por exemplo. Isso acaba inviabilizando a chegada de bons restaurantes ou hotéis.”

Súbito me veio em mente uma questão relativamente recente envolvendo os católicos e os muçulmanos de Roma, na Itália, claro.

Recente é modo de dizer. Desde os tempos de Mussolini que existia a idéia de se construir uma mesquita na capital italiana – que se confunde, obviamente, com o estado do Vaticano, capital burocrática e imaginária do cristianismo. Como um proto-Berlusconi, Il Duce Benito bradou: “Se queremos uma mesquita aqui, é justo que se construa uma igreja católica em Meca.”

Pio XII não foi muito além nem atrás, lembrando essa condição histórica de capital dos cristãos e, portanto, a necessidade de se evitar, a qualquer custo, “contaminações” com cultos religiosos diversos.

O fato é que foram necessárias quase seis décadas até que em 1995 a mesquita de Roma fosse inaugurada, já sob a condição de maior da Europa, com projeto do arquiteto Paolo Portoghesi e custos bancados pelo Rei Faisal, da Arábia Saudita. Entre os muitos opositores à sua construção esteve o Vaticano, cuja maior preocupação era se a cúpula rivalizaria com aquela de São Pedro e se o minarete não seria demasiado alto. Mexeu-se de cá, mexeu-se de lá, e a Santa Madre Igreja venceu: o Islã – ao menos arquitetonicamente – não está à altura dos Católicos Apostólicos Romanos.

Noves fora a questão pessoal e religiosa de cada um, e o uso maniqueísta, preconceituoso e até racista, o sobrescrito louva a defesa do Vaticano do seu território. Não é uma questão de ser justo ou não, mas defender certos princípios é fundamental para a sobrevivência de qualquer cultura ou fé ou credo. É uma questão de identidade.

Daí que essa não permissão “a nada que possa tirar a visão do Forte dos Reis Magos”, objeto da crítica mui pouco desinteressada dos construtores, é mais que justa. Já fizeram atentado semelhante ao Farol de Mãe Luíza, hoje totalmente encoberto pra quem vai no sentido Areia Preta-Via Costeira. O Farol, inclusive, já foi símbolo de uma mais ou menos recente administração municipal. Resta saber quando os nativos destas ribeyras vão entender que Farol, Forte e outros elementos histórico-urbanos são símbolo maior de nossa identidade e devem se perpetuar muito além e acima das quermesses políticas quadrienais e da especulação imobiliária travestida de desenvolvimento.

*

emer-gente

A prefeitura inova, mais uma vez, com um tal “Plano Emergencial do Turismo”. Vou me socorrer do velho Antônio – diz o Houaiss: “emergencial adj. 2g. referente a ou o que tem condição de emergência.” E, no verbete anterior, “emergência s. f. situação grave, perigosa, momento crítico ou fortuito.”

Eu pensava que o adjetivo se coadunava mais a setores como Saúde, Educação, ou a catástrofes da natureza ou provocadas pelo homem (tsunamis, saques etc.).

“O turismo de Natal será tratado como política de Estado”, foram as palavras ouvidas – sem tradução simultânea – em Lisboa, Portugal, alguns meses atrás.


Sendo assim, me parece que toda a administração, não só municipal mas estadual, está sob este signo.

palumbo & tico

Osair Vasconcelos e boa companhia lançam hoje a Palumbo, na Fiern, 18h – boa ocasião pra rever amigos & inimigos.

Mesmo horário, aliás, em que a Academia de Letras homenageia o músico Tico da Costa, com venda de CDs em prol da família. É ir pra um, e depois pro outro. Obrigatório.

ora, raios

Acompanhar minuto a minuto, pelo twitter, o “drama” do vereador Ney Lopes Jr. tentando embarcar para os EUA, foi de uma importância enorme para os destinos desta Capital. Um raio caiu na aeronave do rapaz.

Pena não poder ter sido retuitado. O raio, digo.

salve, jorge

Jorge Mautner na City, domingo – mais exatamente na Ribeyra. Diz o release que no Largo Dom Bosco. Eu já tô ficando confuso: não lembro mais se Woden Madruga reclamou ou não da extensão do nome do Largo – antes restrito às proximidades do Salesiano – ou se a área ainda tem o nome de Augusto Severo, se é uma praça, um largo, um campo de pouso ou simplesmente terra devastada sem memória.

Noves fora, Mautner, de grátis, lá pelo final da tarde dominical, é imperdível.

Prosa

“Ora, tudo tem seu tempo. A humanidade processa dialeticamente sua ascensão.”

Oswald de Andrade

Ponta de lança

Verso

“Preciso do antigo: / do que se transformou em céu / e se fez floresta.”

Marize Castro

“Argentêa”

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Una furtiva lacrima


A contagem regressiva já começou: fico neste espaço até sábado, 14, ou até segunda, 16, ainda preciso checar. Venho me dizendo pra não dar uma de saudosista, pra não escrever sobre despedidas, pra não chorar no ombro de vocês. Sou macho demais – vocês sabem... hum... – pra isso. Pra ficar me lamuriando, lagriminhas nos olhos. Que-é-que-é-isso, rapá? O danado é que meu pai nunca veio com esse papo que homem não chora. Daí até hoje eu chorar no cinema incluindo quando o filme é infantil. Mas sou um sujeito bem ruinzinho também, não se enganem, não se deixem enganar. Neste mundo, há senhoras que me gostariam ter como genro. Outras não me querem ver nem morto. Faz parte da vida. E, da minha parte, eu também não quero ter nada a ver com sogras – eu e a torcida do Flamengo e do Vasco da Gama, mais a do ABC, do América, e vamos incluir de brinde a do Alecrim também. Pronto, falei. Mas isso não tem nada a ver com o assunto de hoje: encontros, despedidas. Porque as últimas pressupõem que as primeiras as hão de suceder. É assim mesmo? Sempre que eu fico emocionado, eu me confundo, e, claro, confundo vocês. Deve ser pra que não sintam tanta saudade d’eu. Aprendi essa estratégia com meu pai. Homem e pai boníssimo, sempre que raramente fazia algo que nos contrariasse, a nós, filhos, dizia: “Faço isso pra quando eu me for vocês não sentirem muito minha falta, e pensarem ‘Tá vendo? Ele não era assim tão bonzinho... Tal dia fez isso, aquilo e aquilo outro...’” Uma dessas “maldades” era escancarar as janelas, manhã cedinho, deixar o sol nos castigar os olhos, dar surras fingidas com o lençol e nos obrigar a tomar um copo de abacatada. Não teve jeito. Foi-se embora meu pai, numa despedida sem fim que não teve mais encontro posterior, e sua imagem de bondade, de respeito, de justiça, de alegria, de amor imenso, ficou pra sempre. E, hoje, eu daria tudo por um copo de abacatada. Mas eu falei que à essa despedida paterna não se seguiu nenhum encontro? Me desdigo: diariamente me reencontro com o que ele nos deixou, e que ninguém me tira – o ensinamento prático de que ser autêntico na vida é o melhor caminho. Daí que aproveito, não o último dia, mas o penúltimo, ou antepenúltimo, pra assumir – sem pieguismo, por favor, e independente das recíprocas:

– Vou sentir saudades de vocês. Até de quem não gostava de mim.

*

sítio

Marlus Apyus está sofrendo com um cliente chato e pentelho – mas já conseguiu ao menos botar experimentalmente no ar um endereço virtual: www.marioivo.com.br. Não visitem ainda, que o espaço ainda tá todo desarrumado. Mas a partir da próxima semana, estréia.

eficiência

Logo mais, 10h, no auditório da Governadoria (naquele Centro Administrativo que querem botar por terra), os conselheiros do Coede-RN – Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência – tomam posse.

breakfast

Quem quiser iniciar os trabalhos da manhã com a barriguinha forrada basta ir hoje, 8h, no Âncora Caipira da Rua Seridó, ali pelo famigerado Plano Palumbo: o vereador Júlio Protásio recebe para um café da manhã, com certeza farto.

Na pauta, a programação do FestNatal.

Amanhã, hoje

Cláudio Emerenciano lança hoje, a partir da hora da Ave Maria, seu livro “Na outra margem, o amanhã”. Na livraria do Midway.

ontem, hoje

Os irmãos Sizenando, Carlos e Fred, lançam hoje, a partir das 19h, seu livro “Dos bondes ao Hippie Drive In”, memórias de uma Natal de ontem, inspiradas, também, nas histórias contadas pelo pai, João Sizenando Pinheiro Filho. No Clube de Radiamadores, vizinho à Cidade da Criança (aquela, mais-que-abandonada).

Em março deste ano, Fred e Carlos foram convidados do café-da-manhã desta coluna.

Realeza

O fã-clube Além do Horizonte convida todos os súditos para, logo mais, 20h, ouvirem a cantora (potyguar) Claudianna Antunes interpretando músicas do Rei Roberto Carlos.

No Teatro de Cultura popular, anexo a Fundação Zé Augusto.

Coral

Começou ontem e vai até amanhã o XV ENCONAT (Encontro Nacional de Coros de Natal), organizado pelo coral municipal Sons da Terra. No CEMURE (Centro Municipal de Referência em Educação Aluízio Alves), entrada apenas 1kg de alimento não perecível.

Calculadora

Ontem foi inaugurado mais um CMEI, desta vez em Santos Reis. A Secretaria Municipal de Educação gastou R$ 60 mil na obra. Ou seja, com os R$ 3,2 milhões do Natal em Gramado ou Gramado em Natal dava para inaugurar 53 centros de educação infantil nesta brava Cidade dos Reis e Rainhas.

A própria prefeita, assinando artigo publicado esta semana na TN, festejou a primeira etapa das melhorias da favela do Maruim, ao custo de R$ 3,5 milhões, recursos do PAC.

Prosa

“Não é hora, portanto, de escritores e artistas abandonarem a luta, cujo máximo prêmio é a liberdade.”

Oswald de Andrade

Ponta de lança

Verso

“Aos senhores que desistiram da flor / ofereço minha última lágrima.”

Marize Castro

“Haste”

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Se um marciano numa noite de verão


Pois: se um marciano numa noite, tarde, manhã de verão aportasse por estas ribeyras muito se maravilharia com encantos que desconfio noutras terras não existem. A começar pela decoração de Natal deste ano – ano este, diga-se de passagem, que finda em seus estertores e suspiros finais com a sofreguidão dos assuntos mal-resolvidos, o que inclui quem apóia quem em 2010.

Mas, nunca é demais falar da decoração natalina 2009, que mistura o chocolate quente de Gramado com as quenturas dos Currais Novos, numa liga que não condiz nem a um nem a outro. Nosso amigo marciano, aliás, estacionaria seu disco voador tranquilamente em qualquer um dos lados da Avenida Afonso Pena, nossa Oscar Freire local, já que o propagandeado Via Livre prefere dar polpudos prêmios jornalísticos [sic] invés de realmente ser implantado onde mais se faz necessário.

O secretário municipal de serviços urbanos já declarou que “basta que a população aguarde a decoração ficar pronta”, numa lógica sem lógica que o produto final vai ficar melhor que o (péssimo) impacto inicial.

Pois, flanando pela Afonso Pena, entre um ligeirinho e outro, cada um dirigindo pior, nosso marciano já pode observar que todo o troço vai ficar ainda mais horroroso. Anjinhos encarnados, dependurados nas árvores, dividem os galhos com sóis, que alguém mais atento já acenou para a possibilidade de estarem sob o efeito de qualquer substância ilícita e entorpecente.

– Emaconhados – como se dizia uma época, sem meias-tintas, enfim.

O pior é que o pessoal da Semsur alertou que a equipe de designers [sic] está aqui desde maio, preparando essa marmota (não há termo melhor, nem mais nordestino).

O marciano também vai se inteirar que o tema do Auto de Natal deste inesquecível Zero-Nove será “Maria, José e o Menino Deus”, o que é de uma originalidade imensurável. Os direitos de transmissão para o SBT devem estar assegurados, seguindo o raciocínio do autual, digo, atual presidente da Funcarte.

O marciano também vai se maravilhar com o fato de que a poda das árvores da Afonso Pena também está sendo feita concomitante ou após a implantação dos penduricalhos, o que prova que a amizade desta Cidade com Portugal vai de vento em popa.

Na contramão da burrice, o marciano há de passar na Banca de Tota – que ele, a propósito, pensará ser a única existente na City, enquanto citada por dez entre dez colunistas e blogueiros (não é engraçado ler notinhas tipo “a última Vogue está uma maravilha e já chegou na banca de Tota”? – como se não chegassem, esta e outras publicações, nas demais bancas). Pois, lá na banca Cidade do Sol, o marciano vai saber que vem novo jornal por aí, nova revista por aí, e novas eleições ano que vem. Também.

Só não vai saber que tampouco há novidade alguma nisso tudo ou em nada disso, pois não é do hábito dos nativos se empapuçarem nem de Iessiênin, quanto menos de Giuseppe Tomasi di Lampedusa – “Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude” (e, no original, pra eu me mostrar: “Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi” ). Pois.

*

saudades

O sobrescrito, com o coração compungido, agradece os muitos votos de solidariedade, elogios etc. por ocasião da minha saída deste matutino (faltam apenas três dias). Vamos, pois, de versinhos: “Até logo, até logo, companheiro, / Guardo-te no meu peito e te asseguro: / O nosso afastamento passageiro / É sinal de um encontro no futuro.” – Sierguéi Iessiênin, traduzido por Augusto de Campos.

Crer ou não crer

Dentro da programação do Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante (aliás, assessorias, não existe “intinerante”), Cleyde Yáconis comanda o elenco da peça “O caminho para Meca”, texto do sul-africano Athol Fugard, sobre uma mulher – segundo o sítio do espetáculo – “de costumes conservadores e culto obrigatório da fé protestante”, que, um dia, “ao descobrir nunca ter amado o bom homem com quem foi casada, abandona a igreja dos domingos porque deixou de crer”.

De 13 a 15, no TAM, sempre às 20h. Ingressos a R$ 15,00 (inteira) e R$ 7,50 (meia – para estudantes, idosos, clientes e funcionários do Banco do Brasil).

Cascavel

A foto que ilustra a coluna hoje não tem nada a ver com marcianos nem sóis emaconhados: é Gisele Bündchen retratada por Mark Selinger, em foto que desde ontem está sendo leiloada na internet (www.artnet.com) e deve alcançar a bagatela de nove mil dólares. São 375 retratos de celebridades e nem tanto, incluindo as dez últimas fotos de Marilyn Monroe e um clássico retrato de James Joyce (estimativa de venda 3,5 mil dólares – o que não deixa de ser uma vergonha e uma lição para escritores empedernidos: uma Gisele vale três vezes mais que o autor de “Ulysses”).

Prosa

“Tomou então a fotografia, e particularmente o retrato fotográfico, no segredo da pose, nos claros-escuros do sonho, na personalização procurada pela anedota caseira, um ar de sociologia ilustrada”

Oswald de Andrade

Ponta de lança

Verso

“A estação das coisas estranhas / acentua-se.”

Marize Castro

“Grinaldas virão...”

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um poeta à toa


Alguém lembrou ontem o aniversário de nascimento de Antonio Pinto de Medeiros? Noventa anos, para ser exato.

Aliás: alguém ainda lembra da figura de Antonio Pinto de Medeiros?

Atendo-se aos dados biográficos tradicionais, nada de muito relevante: nasceu em Manaus, em 1919, onde entra para o seminário, que continua em Pernambuco e abandona, logo depois, aos 17 anos, quando parte para Mossoró. Estuda ainda em Natal e forma-se em Direito no Recife. Foi diretor da Imprensa Oficial no governo de Sílvio Pedrosa, e colunista de O Poti. Nos anos 50, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou nos Diários Associados e onde viria a falecer, em 1970.

Uma vidinha à toa?

Nada.

Basta mergulhar um pouquinho nos detalhes: em julho de 1943, em plena Segunda Guerra, participou do famoso Curso de Conferências do Atheneu, ao lado dos então estudantes João Wilson Mendes Melo, Rivaldo Pinheiro e Luiz Maranhão. “O pensamento de Anatole France” foi o tema abordado por Pinto – o jornal A Ordem caiu de pau em cima do ciclo de conferências, se a expressão for válida para um jornal católico. Câmara Cascudo, Américo de Oliveira Costa e Raimundo Nonato Fernandes, por sua vez, elogiaram e defenderam os conferencistas.

Como professor – segundo Veríssimo de Melo – era querido pelos alunos, mas como “dava aulas de sandálias e camisa esporte, escandalizava os colegas mais velhos”.

A moda não era bem a praia de Antonio Pinto de Medeiros – ou seria melhor dizer que a não-moda era a praia de Antonio Pinto de Medeiros? Eleito para a Academia Norte-rio-grandense de Letras, chegava frequentemente atrasado às sessões mas não apenas: vestindo camisa de meia com listras finas de azul e vermelho e calçando alpercatas abertas.

A Academia fará 100, 200 anos, e Pinto mui provavelmente terá sido o único imortal a renunciar à pretensa imortalidade. Pois foi o que fez declarando-se “anti-acadêmico”.

Suas colunas de crítica literária na imprensa potyguar (Santo Ofício, onde usava o pseudônimo de Torquemada, e Mirantes, ambas no Diário de Natal), eram um terror para poetas e poetastros. Tarcísio Gurgel, em “Informação da literatura potiguar”, conta episódio emblemático na vida de Zila Mamede: após ter um poema seu arrasado pelo crítico, a poeta encontra seu algoz em baile do Aero Clube. Desquitado, com fama de Don Juan, Pinto a tira para dançar, quando, entre um passo e outro, lhe empresta conselhos válidos – e sabe-se lá o que mais.

A atividade crítica de Antonio Pinto de Medeiros foi muito bem resumida por frase lapidar de Veríssimo de Melo: “foi incendiário, numa época em que todos eram bombeiros”.

Antes de partir para a Guanabara, na década de 50, era personagem recorrente nas crônicas de Djalma Maranhão no Diário de Natal (reunidas e anotadas por Cláudio Galvão no fantástico “Esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata, centro convergente e irradiador da vida natalense”, edições Sebo Vermelho, 2004). Em 17 de abril de 1949, Maranhão descreve, ironicamente a roda dos intelectuais na esquina famosa:

“Intelectual no Rio Grande do Norte, [...] não é somente o sujeito que perpetua sonetos, escreve croniquetas, publica um livro de contos, se larga pela estrada do romance, ou queima as pestanas nos massudos estudos econômicos e sociológicos. Não, irmão, intelectual é na maioria o indivíduo que anda com um livro enfiado no sovaco e com um suplemento literário todo amarrotado na mão e com uma autêntica cultura de almanaque.”

Não pára por aí:

“No Café Globo, os intelectuais tomam de preferência cafezinho pingado, isto é, misturado com leite... E as rodadas se sucedem, evitando sempre o café puro, que em demasia ataca os nervos...”

Maranhão continua, descrevendo a turma “do pró” e aquela “do contra”. Adivinhem um dos líderes contrários? Pois:

“Antonio Pinto não é, mas muita gente o considera existencialista. Graças à sua influência, dois jovens de menos de 20 anos, o poeta Joanilo de Paula Rego e o sociólogo (a classificação vai por conta do deputado José Augusto) Walflan de Queiroz, fizeram um serenata no cemitério, declamando versos ‘a la Castro Alves’ aos austeros mausoléus e diante das tumbas rasas, sendo por isso ameaçados de processo como profanadores de lugares sagrados...”

E não esquece nem as preferências exóticas da turma ao redor do clássico cafezinho nem a velha mania de Pinto de inovar no vestiário:

“Pinto e seus pupilos andaram inventando modas. Não botam açúcar no café com a colher, derramando desleixadamente o açucareiro na xícara. O laço da gravata deles é diferente e mais um mundo de outras coisas semelhantes. Finalmente Pinto bancou o Graça Aranha da jerimunlândia, rompendo espetacularmente com a Academia de Letras, pedindo ‘baixa’ da cadeira para a qual fora eleito, dando um shut na imortalidade.”

E que chute! Ao chutar o pau da barraca da mediocridade, Antonio Pinto de Medeiros tornou-se, verdadeiramente, imortal.

*

Prosa

“todo o trabalho útil consiste no renovamento, na remoção do entulho da ancestralidade”

Oswald de Andrade

Ponta de lança

Verso

“Morta estarei mais viva / Sem fomes, sem fezes, sem sangue, sem vítimas.”

Marize Castro

“Réquiem”

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Dr. Nácul


Meninos, meninas, vos apresento o Dr. Nácul. Aliás, Dr. Almir Nácul. Aliás, Almir Moojen Nácul. Atentem ao acento agudo na penúltima sílaba, último sobrenome, por favor. Atentem, também, pelas caridade, que a vogal acentuada é “a”, não “o”. Naaaa-cul – repitam comigo, é essencial reforçar a paroxitonia do nome.

Pois bem, feitas essas ressalvas, vamos ao doutor Nácul.

Almir Nácul é gaúcho, e mora no Rio Grande do Sul, mais exatamente na distinta capital, Porto Alegre. Almir Nácul se diz “um cientista brasileiro” – poderia ser mais um, desses tantos que a gente esbarra a cada esquina, em cada campo de várzea, em qualquer grotão dos muitos grotões destes Tristes Trópicos, mui avançados nas Ciências, se não tivesse inventado uma “revolucionária técnica”: a Bioplastia.

Sim, o Dr. Nácul é cirurgião plástico, essa especialidade da medicina que a maioria das mulheres – dos 14 aos 80 anos – almeja tornar-se paciente. Mesmo diante da dor causada pela lâmina fria do bisturi.

Daí a invenção maravilhosa do senhor, doutor, Nácul. Como as cirurgias plásticas convencionais são o que são – ou seja, antes de plásticas são cirurgias e como tais exigem cortes, mais ou menos profundos, que por sua vez geram cicatrizes e inúmeros cuidados pós-operatórios –, o professor doutor Moojen Nácul desenvolveu nova e revolucionária técnica que utiliza-se de “implante de biomateriais, em níveis profundos, por processo minimamente invasivo”, para as devidas correções nas imperfeições do corpo humano: a Bioplastia, pois – considerada “A Plástica do Terceiro Milênio”. Poderia ser considerada também “A Plástica do Terceiro Mundo”, visto que Nácul se orgulha muito de suas raízes.

Não à toa, uma das principais garotas-propaganda do gaúcho é a também gaúcha Juliana Borges, miss Rio Grande do Sul. A assessoria de imprensa do médico nem esconde: o caso de Juliana Borges “gerou grande polêmica por ter se submetido a 19 plásticas, tendo se elegido Miss Brasil. Assim como ela, mais sete outras candidatas, com a ajuda da Bioplastia, ganharam o título máximo da beleza brasileira.”

E pode? Pode. Quer dizer, imagino que possa. Afinal, já foi-se o tempo de uma Martha Rocha – baiana de olhos azuis – que, reza a lenda, perdeu o concurso de Miss Universo por apenas duas polegadas na altura da cintura.

Através da Bioplastia – ensina ainda o release – pode-se não apenas transformar uma pessoa feia em bonita, bem como “deixar uma bonita, mais bonita ainda”. E tudo muito “naturalmente”: devolve-se volumes perdidos, restaura-se o rejuvenescimento, instaura-se o equilíbrio estético e o embelezamento.

Mais: o cientista inova também, com uma nova técnica, as clássicas plásticas de nariz, através do “suspensório nasal de Nácul” – esqueçam o nome estranho e acreditem: cerca de 95% das correções nasais podem ser feitas sem cirurgia.

Ainda: a Bioplastia pode ser usada para aumentar ou empinar o bumbum, engrossar as pernas e aumentar o pênis, tudo sem o incômodo de semanas e semanas de pós–operatório das cirurgias convencionais. E olha que maravilha esse trecho do release:

“Após o procedimento é possível, no mesmo dia, dirigir e até viajar por terra, ar ou mar.”

Por terra, ar e mar.

Isso é realmente incrível.

Mas não acaba aqui: a anestesia é simples, semelhante àquela usada pelos dentistas, o que faz da Bioplastia uma “plástica interativa”. Como o paciente fica acordado, ele pode acompanhar, “passo a passo, o desenrolar do processo através de um espelho, podendo participar, opinar e interagir com o cirurgião, durante o procedimento”. Ou seja, pode dar pitaco, mesmo – “Mais um pouco pra direita... não, não, foi demais... isso, um pouco mais pra cima... ok... hum... não tá parecendo muito com o nariz da Nicole Kidman, o senhor está louco?”

Bom, o negócio, dependendo da chata da paciente, pode dar errado – mas pouco importa: pra saber mais sobre as maravilhas do Dr. Nácul compareçam hoje à noite, 19h30, no hotel Pirâmide, da Via Costeira. A entrada para a palestra é grátis, mas se quiserem levar uma lata de leite em pó as clássicas instituições de caridade agradecem. E o Dr. Nácul também.

*

Prosa

“Os vícios, os desregramentos que perturbam a serenidade íntima do modelo vão estranhamente vincar a face pintada.”

Oswald de Andrade

Ponta de lança

Verso

“Nada existe que me tire / de mim mesma. / Nem mesmo esses cadáveres / de plástico em seus simulacros / de alabastro.”

Marize Castro

“Se me olham”

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Carito

Cultura 071109

Carito (Carlos Estevam Dantas Cavalcanti), meu melhor amigo de infância, um homem quase renascentista: arquiteto, poeta, músico, artista, viajante, boêmio, amante da vida – tudo isso de nada valeria se não fosse dom maior: meu irmão, dois anos mais velho.

Era uma vez no oeste (potiguar)! Alguns causos no mar do sertão

No início dos anos 70 eu era criança na ainda semi-deserta praia de Pirangi. Lembro sempre de uma luz imensa à beira-mar e de quando a bola corria levada pelo vento, sozinha, livre, em direção ao norte. Eu via a bola se afastar em direção às pedras antes das praias desertas entre Pirangi e Cotovelo. A bola me chamava e uma mistura de desejo e medo tomava conta de mim. Eu pensava que lá longe, para onde a bola ia, nas pedras, era o fim do mundo. Depois dali eu imaginava um grande abismo espacial. Quando cresci uma bola imaginária me levou para o oeste potiguar e eu conheci o mar do sertão: um novo fim do mundo!

A história do peixe-boi salvo pelo pescador bêbado e o falso fiscal do Ibama

Um dia um peixe-boi encalhou na beira da praia de Ponta do Mel, próximo ao Mel de Baixo. Era um filhotinho. E que filhotinho! Era um filhotão! Apesar de filhote ele era enorme e estava bastante fragilizado. Foi salvo por um pescador, pela manhã, logo cedo. O pescador fez um poço na beira da praia para o filhote de peixe-boi e ficou trocando a água constantemente. Até aí tudo bem! Assim que soubemos, avisamos ao Ibama que nos orientou: ninguém pode ficar tocando no filhote, ele precisa de espaço, as pessoas devem ficar longe, não deve haver confusão. Peguei o jipe e fui até essa parte da praia. No entanto, enquanto o pescador salvava o peixe, nosso herói resolveu beber água – mas aquela água que passarinho não bebe! E quando cheguei ao local, o pescador já estava bêbado, uma multidão formada, a água do poço quente, e o nosso herói abraçado com o peixe dizia:

– Pode ser o homem mais rico do mundo, mas ninguém vai levar o meu peixe!

E agora, o que fazer? Ao saber o que se passava na praia, nosso amigo e parceiro Norton, que estava levando uma viajante para Jericoacoara, resolveu atrasar sua viagem para que o peixe-boi pudesse fazer a viagem dele. Sabendo que o Ibama estava para chegar, Norton aproveitou a oportunidade quando seu jipe foi confundido com o jipe do Ibama.

– É o jipe do Ibama chegando! Gritava a multidão na praia.

Norton já desceu do jipe com uma prancheta na mão, fazendo anotações e perguntando pelo herói salvador do peixe. Foi quando o pescador deixou o peixe e foi dar uma verdadeira entrevista para o pseudo-fiscal do Ibama. Norton fez as mais variadas e inusitadas perguntas as quais literalmente tiraram o pescador de tempo, tiraram o pescador do poço, abrindo espaço para a chegada do verdadeiro Ibama.

Jipe, helicóptero, e um nome de batismo: Petrolino foi finalmente salvo e levado para uma área de proteção ao peixe-boi, com todos os cuidados profissionais necessários. Petrolino seguiu viagem, Norton seguiu viagem, e o nosso herói se misturou à maré, numa ressaca só!

Lampião só queria ver o mar

A avô de Joane (minha mulher), Dona Maria do Carmo, quando era criança, testemunhou uma passagem de Virgulino Ferreira lá por perto de Mossoró. Ela conta que quando ele passou por perto do sítio onde ela morava tudo se calou: grilo, bicho, vento e as crianças que pararam de chorar e assim não chamaram a atenção de Virgulino Ferreira, o Lampião.

Se você traçar uma reta lá de dentro do sertão em direção ao mar ela vai bater em Ponta do Mel. Vindo lá do rio São Francisco, de Angicos, Alagoas direção Pernambuco, passando por Serra Talhada, seguindo em frente passando por Mossoró... Mas Lampião não passou! Lampião entrou em Mossoró e os mossoroenses expulsaram Lampião com uma chuva de balas.

Por isso que tem gente que diz que Lampião só queria ver o mar! Mas os mossoroenses não deixaram. De vez em quando o mar se cala em Ponta do Mel. Como se ainda estivesse esperando ele chegar.

O remédio para a violência lá no Cariri Paraibano

Contando causos da Costa Branca de repente me vejo falando do Cariri Paraibano. Porque tudo está interligado ao mar do sertão. Lembrei dos causos contados pelo vigia lá do Hotel Fazenda Pai Mateus, à noite, na beira da fogueira. Em um desses causos, o próprio vigia contador de causos faz parte da história. Ele nos disse que uma vez uma moça de São Paulo ficou intrigada com a escuridão, com o isolamento da fazenda, e então lhe perguntou:

– Aqui não é perigoso? Essa fazenda assim... tão isolada...

– Aqui não é perigoso não, moça! Porque qualquer coisa assim aqui a gente mata logo que a gente não gosta de violência não!

Até que nem tão súditos assim!!!

Esse causo aconteceu nas vizinhas terras cearenses, pelas bandas de Ponta Grossa, antes de Canoa Quebrada. Foi num barzinho na beira da praia. Eu e Joane acabamos nos entrosando com a mesa vizinha e o dono do bar. A mesa vizinha era composta por um inglês e sua simpática namorada cearense. O problema foi que a partir de um determinado momento o inglês começou a demonstrar um ar de superioridade para conosco. Acho que o inglês pensava que nós éramos seus súditos. E até a namorada do inglês também rebateu alguns comentários dele pra lá de equivocados. Mas o que me chamou mais a atenção foi um comentário do dono do bar, um pescador local e orgulhoso de ser brasileiro e nordestino. Depois de uma série de comentários chatos sobre o Brasil e seu povo, feitos pelo inglês, o dono do bar falou:

– É estranho... Ele vem de uma terra que ainda tem rei, e ainda acha que é mais civilizado e adiantado que a gente!!!

Prosa

“E, quando eu tiver franqueado o último recinto de muros, tu e os homens de tua cidade já terão esquecido o meu nome.”

Dino Buzzati

As montanhas são proibidas

Verso

“Quem nem liga / é quem curte”

Civone Medeiros

“Epigrama #9”