quarta-feira, 8 de julho de 2009

Os derrotados


No terceiro piso do maior shopping da City só falta ter quadrilha junina, tantas são as quadrilhas que vêm se reunindo por ali nestes tempos juninos, embora já adentramos julho e julho continua igual a junho, incluindo aí a chuva chata, o dilúvio universal, qualquer trovão, uma ou outra trovoada.

O terceiro piso do maior shopping da City – e 99,9% do Arraial o sabe – abriu recentemente. Ainda falta a um bocado de lojas escancarar suas portas, daí que ainda se pode circular por ele com certa calma, sem esbarrar na plebe que superlota os andares inferiores.

Mas em dias de lançamentos literários, esta Capital – que gaba-se ser uma espécie de Buenos Aires Atlântica, com nossas imponentes Bibliotecas em cada esquina – acorre em peso ao entreposto livreiro. São as quadrilhas literárias, estilizadas em prosa, tradicionais em verso.

Hoje não há de ser diferente, pois é dia, aliás, noite, de Nei Leandro (de Castro) lançar livro novo na praça.

Mas, mas, mas, mas, desconfio que o poeta (um dia pastor e flauta, outro, romanceiro e devasso) não foi muito feliz na escolha do título do romance – “A fortaleza dos vencidos”. Como assim, Nei? Falar em derrota para os aldeões de narizes empinados, músculos entalhados, cabelos escovados e automóveis suecos nas seis vagas na garagem? Falar em perdas e danos a quem está acostumbrado a só colher vitórias – refinarias, aeroportos, Copa do Mundo, inclusive – ?

Tem ainda – ao menos pelo que informa o release – um casal de protagonistas de nomes exóticos: Marionália e Esmeraldino. A primeira, “escracho e loucura”. O segundo, “ternura e consciência política”. Antes de ler o livro arriscaria dizer: não negam o pai que têm.

*

Lar doce lar

Pois Nei Leandro (de Castro) é exatamente ou mais ou menos isso: escrachado, louco, terno, e político na dose certa.

Mas como ele se dá melhor com as mulheres, vou deixar que uma fale dele: “Ele é apaixonado, terno, frágil, forte, visceral. Sua companheira, a literatura. Sua morada, o amor.” – Marize Castro, resumindo Nei em “Além do nome”, 2008.

devassa

Mas Nei Leandro (de Castro) – sabido – um dia também resolveu ser mulher: foi em 2006, quando despiu a pele de fauno e incorporou uma Natália (de Sousa – com “s”, atentem ao detalhe), que além de ser natalense transplantada na Guanabara (como Nei, um dia) e “pequenina da perna grossa” (não, não, como Nei, não), escrevia uns versinhos bem despudorados e outros bem singelos, coisa assim: “A primeira vez/ que molhei a calcinha/ foi num filme romântico/ no escurinho/ do Cinema São Luiz./ Quase menina, boba,/ não entendi muito./ Mas fiquei feliz.”

júri

Iaperi Araújo preside o júri do 19o Festival do Vídeo Potiguar, em boa companhia: Arnóbio Fernandes, Cristóvão Pereira, Jânio Vidal, Michele Ferret e Rejane Cardoso são os outros jurados. O FestNatal acontece dias 21 e 22 de julho, no SEBRAE, com sessão única, às 18h. E as inscrições findam próxima sexta, 10 (pelo sítio www.festnatal.com.br ou na sede do festival, Av. Antônio Basílio, 2230, Lagoa Nova.

SPEED

Pra quem é ou foi fã de Speed Racer saiu uma caixa especial, edição limitada, com a série completa do mangá original que deu origem ao seriado de TV: custa R$ 60.

CONVITE

Com um dia de antecedência, não vale esquecer: se você é, ou se considera, um artista plástico ou visual (ou as duas coisas), a ilustríssima Pinacoteca deste Ryo Grande convida para reunião amanhã, 14h30, na própria pinacoteca, antigo Palácio do Governo. Na pauta: rumos e prumos da instituição.

Dose Tripla

Também com um dia de antecedência, vale a pena aceitar o convite da Fapern e ir amanhã ao SEBRAE para o tríplice lançamento: do livro sobre o padre João Maria e das revistas Ciência Sempre e Perigo Iminente.

P&V

O Prosa & Verso desta semana, acho que ainda não disse, fica por conta de dois pesos-pesados, dois dabliús, aliás, três: o jornalista Fausto Wolff, e o senhor Walt Whitman.

Pode-se não concordar com tudo que Wolff escreve, mas não se pode ignorar como escreve, regurgitando elegantemente idéias e ideais. Confira “A imprensa livre de Fausto Wolff”, Porto Alegre: L&PM, 2004.

Já Whitman é Whitman e basta – basta, pois, recordar que a primeira edição de “Leaves of grass” data de 1855 – lá se vão 154 anos. Confira a edição bilíngüe de “Folhas de relva”, São Paulo: Iluminuras, 2006.

PROSA

“Depois dos sessenta a gente descobre muitas coisas. A maioria desagradáveis.”

Fausto Wolff

A imprensa livre de

VERSO

“Um homem é uma intimação e um desafio”

Walt Whitman

“Folhas de relva”

terça-feira, 7 de julho de 2009

Meu amor

A ex-senadora Heloísa Helena nas páginas da Veja desta semana:

“A podridão é generalizada, meu amor. Na política, só quem é bandido não fica estressado nem à beira de um ataque de nervos, como eu.”

A afirmação é resposta a pergunta anterior, “O que é pior: a Câmara de Maceió ou o Senado?”.

Podre um, podre a outra, são todos podres, pois, um Reino da Dinamarca em cada município, o mar de lama espraiando suas margens nem sempre plácidas pelas Câmaras Municipais espalhadas, em igual medida, pelos quatro cantos deste País Varonil e Gigante Pela Própria Natureza, e pelo Senado Federal, único, indivisível, epicentro e Aleph deste povo que se jacta ser o melhor em quase tudo, inclusive em sacanagem e jeito diminutivo.

O Aleph, vocês sabem, é aquele objeto mágico, escondido num porão da Rua Garay, em Buenos Aires, e que contém todos os lugares do universo em seus dois ou três centímetros de diâmetro. Uma esfera fulgurante e furta-cor.

O Senado Federal é o Aleph do Brazil. E dos brazileiros. No bem, no mal, no pior.

O Aleph original está no conto homônimo de Jorge Luis Borges, que começa com o narrador observando a mudança da publicidade em um painel na Praça Constitución, alterada para um novo anúncio de cigarros.

Se no Brazil fosse, os cigarros poderiam ser aqueles Vila Rica, cantados e decantados pelo jogador de futebol Gérson, que se jactava e falava em nome da tribo: “Você também quer levar vantagem em tudo, certo?”

Certo, neném, certo, meu bem, certo, meu amor.

Pois não é bem de podres, bandidagem, estresse, e nervos sob ataque que quero aqui falar – mas desse jeitinho amável que os brasilianos exercitam diariamente, como se nada fosse: “Meu amor, sua reclamação será anotada e estaremos providenciando seu pedido”, canta a mocinha do call center. “Meu amor, não posso fazer nada, volte amanhã”, diz a outra mocinha da recepção burocrática. Até uma ex-senadora da república falando à imprensa: “Meu amor, meu benzinho, isso aqui tá uma merda, mas fazer o quê?”

Um país de apaixonados, pois. Podremente apaixonados.

*

PIB

Olha que estado democrático e pleno de arroubos de cidadania este Ryo Grande: 4.800 pessoas foram às ruas de São José de Campestre para manifestarem seu apoio a um dos candidatos à eleição do próximo dia 26 – já que o prefeito foi cassado. O município tem 11.744 habitantes, segundo o IBGE – que informa também o PIB per capita: R$ 2.819. Ou 1.424 dólares.

Com certeza os campestrenses foram às ruas ansiosos em votar e elevar seu PIB através do voto no final do mês.

FONDUE

Monte das Gameleiras é uma beleza só: encravada pertinho do céu, 2.394 almas (hoje passo o dia no sítio do IBGE), PIB de R$ 3.754, clima serrano e tal. Pois, a partir da próxima sexta, começa o “5o Arraiá da Galega”. Que galega é essa? Sei não, mas o evento conta com festival da cachaça e uma ruma de shows (aí incluídos os artistas Louro Santos, Vitor Santos e Arnaldo Farias, e as bandas Forrozão Tá na Cara e Moleca Dengosa). Pra harmonizar com a programação e os sonoros nomes das bandas, rola também provas de quadriciclo e mountain bike e um rodízio de – adivinhem? – fondue.

Que se pronuncia assim, fazendo biquinho: fon-dí.

CASADOURO

O sobrescrito não sabe onde estava com a cabeça quando perdeu, sábado último, o evento “Casar bem”, promovido por uma loja da City. Teve dicas de maquiagem (especial para as noivinhas), apresentação de três opções de vestidos para cada tipo de festa, mostra dos tipos de alianças mais usadas, sugestões para as caixetas (?) para a mesa de doces, e os indispensáveis convites, “ideais para cada perfil de noivos”.

(Ah! Me lembrei: eu tava tomando cachaça, sem direito a fondue.)

TECHNO GIRL

A vereadora Julinha Arruda está melhor do que os tuiteiros de plantão: colocou em seu sítio na rede mundial de computadores a ferramenta do Google maps – clicando no mapa deste Arraial o cidadão confere os requerimentos da moça para cada bairro.

Se ela entrar no twitter, prometo acompanhar.

TROCO

“Uma vez reclamaram porque ele artesanou um soldado batendo num bêbado, aí ele não teve dúvida e moldou o bêbado batendo no soldado.” – do professor-doutor João da Mata Costa, falando sobre Mestre Vitalino, cujo centenário do nascimento acontece dia 10.

PROSA

“Se houvesse um dique separando Brasília do resto do país e alguém fizesse um buraco acabaríamos todos sujos de merda e sangue.”

Fausto Wolff

A imprensa livre de

VERSO

“Se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.”

Walt Whitman

“Folhas de relva”

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Duas histórias


Quase que ao mesmo tempo me chegam duas histórias, uma de vida, outra de morte. Uma no tom coloquial de um telefonema, a outra via email.

O poeta Diógenes da Cunha Lima – que andava tão sumido para mim quanto eu para ele – traz os sempre sorrisos na voz e conta a sua:

A filha recém-casada e o novo genro retornavam a Natal, vindos de Mossoró City. Noite alta, lá pelos lados de Lajes, uns três quilômetros antes, o carro recusa o caminho. Pifa, pane, pânico. Isso foi na quinta-feira passada. Noite, já disse, um breu dos diabos. Estrada deserta. Até que se aproxima um carro da polícia. Novo temor: e se fossem confundidos com bandidos? O carro parado no meio do nada e tal.

Esclarecidos os fatos, as circunstâncias, o motivo, dois dos quatro policiais se prontificam a levar o casal até Lajes, os outros permanecem tomando conta do carro – vai saber se aparece um bandido que além do crime é organizado em coisas de mecânica?

Pois. Os mesmos policiais arrumam um socorro em Lajes, o carro é reparado, consertado, enfim, pode-se seguir viagem. O rapaz, agradecido, oferece, a título de muito obrigado pela ajuda, duzentos contos aos homens da lei. Notem bem: quando entre um policial e o cidadão se coloca duas notas de R$ 100 quase sempre o preconceito associa o gesto a suborno, corrupção e jeitinho tipicamente brasileiro – mas aqui, não: aqui o lance era agradecimento puro e simples, alívio e reconhecimento.

Os policiais recusam – “De jeito nenhum. Não podemos receber.” Não sei se chegaram a complementar com um “estamos aqui para proteger e servir”, que nem os policiais gringos, mas o significado implícito é o mesmo.

Os quatro bravos soldados pertencem ao Comando de Operações Especiais e Permanente do Oeste. Estavam indo em diligência a Caraúbas. Pegar uns bandidos, trocar uns tiros. Não sei se foram, e, se foram, auguro que estejam bem. Mas naquela noite já fizeram seu papel: dar segurança ao cidadão. O poeta Diógenes, que já andou indagando em artigos “quem defende a polícia,” achou por bem registrar o fato, e eu também. Mas agora me pergunto se é tão inusitado assim essa história ou se estamos nos acostumando a viver assim, tristemente surpresos com policiais que estão, como eles mesmo disseram, apenas cumprindo o seu dever.

a onça e o bode

A outra história deixo que conte quem me contou: Márcia Guedes Fernandes, filha de Toinho Guedes. É a que segue, tributo a “seu” Rafael, quase tão anônimo quanto os policiais da história anterior, e tão verdadeiro e simples quanto:

TRIBUTO A “SEU” RAFAEL

“São 12h, do dia 2 de Julho de 2009. Encontro-me na cidade do Rio de Janeiro, para descansar um pouco e me refazer da irreparável perda de meu querido PAI, Antonio Guedes (‘Toinho Barbeiro’), que se foi quatro meses atrás. Sinto muito a falta de meu querido pai. Mas me restava um grande trunfo, que era ter, ainda, aquele que me acolheu e me adotou como filha de coração, logo depois da morte de papai. Grandes amigos inseparáveis, dos tempos de juventude, do Exército onde juraram amor a Pátria, do Bairro da Ribeira, do Grande Ponto, da Lagoa Seca, do Alecrim Clube, do namoro ao casamento (Sr. Manoel Rafael de Araújo com sua musa Raimunda, e meu papai com a musa dele, minha mãe, Socorro), dos nascimentos dos filhos, dos netos. Eu nasci e cresci vendo aquela amizade dos dois, que nada no mundo fazia interromper, até a partida de meu querido pai para o andar de cima. Mas hoje, poucos minutos atrás, meu irmão Marcus Guedes, me liga, para me dizer, assim mesmo: ‘Minha irmã, acabamos de perder o nosso pai de coração, perdemos a nossa Onça (era assim como chamávamos uns aos outros) que bravamente lutou nestes últimos dias de vida.’ E aí a tristeza voltou a me rondar, e aqui estou eu, no meu laptop, tentando prestar minha última homenagem, à minha querida Onça, que tanto me queria bem, me orientava, me apoiava, neste momento tão difícil pelo qual estamos passando... E agora? Como vou viver sem os dois? Só tenho uma certeza: que, agora, neste momento, os dois velhos amigos já estão juntos, para continuar a velha e inseparável amizade que foi interrompida há quatro meses aqui na terra. Mas também tenho certeza que, de lá de cima, teremos mais dois anjos da guarda a nos proteger, a nos guiar e a nos iluminar em nossas vidas. Que Deus, na sua infinita bondade, receba mais este grande Homem de Bem, que juntamente com meu pai voltarão a fazer uma dupla perfeita: a Onça e o Bode.” [MÁRCIA GUEDES FERNANDES]

*

PROSA

“Sou um cético e um homem de fé.”

Fausto Wolff

A imprensa livre de

VERSO

“Nem um dia se passa... nem um minuto ou segundo sem um parto; / Nem um dia se passa... nem um minuto ou segundo sem um morto.”

Walt Whitman

“Folhas de relva”

sábado, 4 de julho de 2009

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Márcio Nazianzeno

Não existe muita dificuldade na figura de Márcio Nazianzeno a não ser o interlocutor lembrar e pronunciar corretamente o seu sobrenome. No mais, é figura afável e até discreta levando em consideração a profissão que exerce: publicitário – reino dos histriônicos por natureza ou vocação. Como todo redator – ou vice-versa – mantém um blog (confiram em http://queridobunker.wordpress.com), onde finda cada postagem com um clássico e simpático “abraço fraterno”.

Márcio N. (vamos facilitar) foi também sócio da Limbo, uma das muitas coisas boas que a cidade do já teve, já teve, pois.

Do liseu como estado de espírito

[Liseu – subst. fem. sing – na pindaíba]

É mais rico um homem que vai ao bauru e pede uma fatia extra de queijo por 50 centavos do que o outro que reclamou o preço do cafezinho na última viagem para a Europa.

O liseu é um estado de espírito, e a riqueza também.

Somente uma coisa, cidadão classe-média, define em qual lado da linha da miséria você está: sua forma de encarar as coisas. Você pode ser um otimista, onde a riqueza aparece mesmo na pobreza, ou um pessimista que torna o mais rico dos homens um pobretão - e aqui mora o perigo.

Não há nada mais genuinamente pobre do que reclamar, e, quando de barriga cheia, os ponteiros do detector de liseu se põem a rodar.

Encontrei um amigo que sempre gostou de reclamar. Reclamava na escola, seguiu resmungando na adolescência. Casou no civil, reclamou durante o casamento e agora se queixa dos honorários do advogado de divórcio.

Alguns fatores certamente agem em favor do liseu.

Acho que um deles é o casamento.

Lembro-me da máxima: “casou-se, reiou-se” – lida na camisa do cidadão flagrado outro dia na Praia dos Artistas. Sim, aquele homem podia ter a alma empertigada pelo liseu, mas soube juntar suas moedas para deixar uma mensagem ao mundo.

Eu gostaria de deixar também o meu recado:

DISTINÇÕES ENTRE LISO EM ESPÍRITO E O RICO EM INTENÇÃO

O liso em espírito reclama do aumento do pão.

O rico em espírito entra em dieta e deixa o pão.

O liso em espírito compra um carro em 60x e instala um tanque com gás natural.

O rico em espírito compra um Audi A3 e instala 3 loiras e 1 morena nos assentos.

O liso em espírito deixa o carro em casa pra economizar no combustível.

O rico em espírito deixa o carro em casa, mas por consciência ambiental.

O liso em espírito tem mulher, filhos, contas e a ração do cachorro.

O rico em espírito também, mas evita tocar nesse assunto em público.

O liso em espírito reclama.

O rico em espírito reflete.

O liso em espírito sempre pede embrulho para viagem no restaurante caro.

O rico em espírito vai ao boteco do bairro e oferece por conta uma rodada de cachaça.

E por aí vai, sempre na banguela.

Tenho um bom exemplo de cidadão liso em espírito, desembargador, com salário de mais de 20 mil por mês.

Ele adora assistir filmes. Mas o DVD é sempre pirata [ainda assim, se não conseguir baixar pela internet]. Cinema, só vale mesmo na promoção das quartas-feiras. Leva a pipoca de casa, e pede à moça do balcão pra ceder a manteiga. Nas férias só viaja para lugares onde tem um amigo para oferecer hospedagem. Isso, aliás, não é problema nenhum. Porque o pobre em espírito é tão chato, mas tão chato, que nunca viaja nem muito menos tem amigos.

Há o caso do pobre em espírito e também em corpo. Pois saiba que nunca desgraça é pouca que não possa ficar pior: o liso em corpo e espírito pode vir a se tornar um novo-rico em espírito. Nesses casos prestação e dívida são assuntos recorrentes em seu universo, cujo alegria é um crediário nas Casas Bahia ou, se você morar no Nordeste, nas lojas Insinuante. O novo rico em espírito tem uma televisão de plasma pesando no crediário.

Um fator determinante é que o liso em espírito não sabe o valor das coisas.

Gosta de camarão, mas para poupar prefere comprar carne, por mais que camarão em Natal custe metade do preço. O rico em espírito é um pouco diferente. escolhe a comida pelo lado direito do cardápio – “eu não como preço”, por mais que para isso seja necessário virar o livro de cabeça pra baixo.

Um minuto.

Sinto o cheiro de caviar vindo de algum lugar. Ou seria merda?

Um rico em espírito sabe a hora de se retirar.

Abraço fraterno, [Márcio N.]

PROSA

“Quando o mundo, no início do século XX, se refazia, Natal se fazia.”

Flávia Assaf

Perigo Iminente

VERSO

“O sol é um só. Por toda parte caminha. / Não o darei a ninguém. Ele é coisa minha.”

Marina Tsvetáieva

“O sol é um só...”

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sexta de notas e que tais


Sunshine

Começou ontem uma exposição sui generis: Eduardo “Dunga”Alexandre pendurou nas paredes do Bar Pôr do Sol uma série de mini-quadros tendendo para os tons amarelos. Quem comprar, leva na hora, que o artista repõe outro no lugar. O preço é único: 50 contos. E o Pôr do Sol em questão fica na Rua Cel. Flamínio, bairro dos Santos Reis, defronte ao antigo porto da balsa.

USINA

Começa hoje o Festival Usina da Cultura, no Espaço Villa Oeste, Mossoró City, com plenária, mesa redonda e exibição de vídeo.

Para “celebrar e incentivar as manifestações artístico-culturais independentes”, discutir e incentivar a “sustentabilidade do setor artístico-cultural” da região, e “difundir os ideais da Economia Solidária”, amanhã se apresentam bandas nativas (AK-47, Bugs, Jurubeba’s, Manifestarte S.A., Parole, Rosa de Pedra e Sick Life), cearenses (Arsenic e My Fair Lady), pernambucanas (Cordel do Fogo Encantado e Nuda) e a baiana Clube de Patifes. E mais, entre outras: Vlamir Cruz ministra a oficina “Gravando e produzindo sua música”.

PIUM

Hoje tem Café com Letras no Instituto Pium de Cultura, no Vale homônimo, Rota do Sol. Almir Padilha é a atração, que tem também sebo, exposições etc etc. A partir das cinco da tarde.

SOLO

Hoje a Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão apresenta o espetáculo “Solosparestrios”, 20h.

No palco do TAM? Não, no palco do TCP, Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, parede e meia com a Fundação Zé Augusto.

CONTOS

Hoje o jornalista, escritor, cordelista e poeta Cefas Carvalho lança seu quarto livro, “Encontos e desencontos” – sem erre, mesmo, que o volume reúne 25 contos, alguns deles inéditos. No terceiro piso do Midway, 19h.

FEST

Terminam hoje as inscrições para o Festival do Vídeo Potiguar 2009, em sua nona edição, parte inseparável do 19º Festival de Cinema de Natal e do calendário oficial dos festivais nacionais, aprovados pelo Ministério da Cultura e pelo Fórum Nacional dos Festivais.

Acesse www.festnatal.com.br. E inscreva-se.

Ah! E o diretor-geral do FestNatal, Valério Andrade, lembra que não serão aceitos vídeos que concorreram em edições anteriores ou produzidos fora deste Ryo Grande.

FOLIA

Cinco mil pedestres devem partir amanhã, a partir das duas da tarde, da Praça André de Albuquerque, engrossando as fileiras da “2ª Caminhada Histórica de Natal”. Quem conseguir cumprir o trajeto – animado pelos batuques do grupo Folia de Rua, de Jorge Negão – finda na Rua Chile, Ribeyras do Putigy, onde se apresentam Nonato Negão, Pedrinho Mendes e Sueldo Soares.

A Lei Câmara Cascudo incentiva.

Mais informações: 4009.7888.

Dia 10 tem show da banda 2 Polos.

Straight to hell

Metal, metal, metal: domingo não dá outra no Centro Cultural DoSol, Ribeyra punk velha de guerra e guitarras. É a terceira edição do Festival DoSol WarmUp, espécie de esquente pro Festival DoSol 2009 (em novembro).

Vem gente dos EUA (Omen), México (Strikemaster), e até da Bahia, claro (Headhunter D.C.). Representando a tribo nativa, o Comando Etílico.

INVISIBILIDADE

Nas telonas, o polêmico “Garapa” continua em cartaz – ao lado de dois representantes nacionais, “A mulher invisível” e “Jean Charles”. Além do verde, do amarelo, da ordem e progresso, os três têm em comum a visibilidade: o primeiro trata de um problema que normalmente não se quer ver – a fome –; o segundo sobre uma mulher que, de tanto querer ver, o protagonista acaba vendo; e o terceiro sobre alguém que foi visto na hora errada, no lugar errado e, pior, como a pessoa errada.

Carioca

Eliade Pimentel recomenda a hapy hour no Lá na Carioca, bar que tem “proposta séria e veio para ficar”. No cardápio, além de feijoada carioca, MPB pra dançar e se divertir. Rua Gonçalves Ledo, próximo à Cosern.

Aniversário

Nos quatro anos da Garagem Hermética Quadrinhos o sítio oferece frete grátis para compras acima dos R$ 80. Durante todo o mês de julho. Confiram em www.ghq.com.br.

VISA

Ao menos 650 nativos deste Ryo Grande embarcam nestes primeiros dias de julho para os Estados Unidos da América, me informa o release. E daí? Daí, nada – me mandaram o release, a informação há de ser válida para alguém. Tirem suas conclusões.

FDP

“Tem uma porrada de sujeito que não me conhece e já fica me tirando de ‘arrogante, filho da puta, agressivo, mal caráter’ e o escambau. Acho legal quando as pessoas me conhecem e sacam que na verdade, não sou porra nenhuma do que os desafetos querem alardear que sou. Posso até não ter uma cara de muitos amigos, mas tenho amigos pra caralho.” – do dramaturgo e escritor Mário Bortolotto em seu blog Atire no Dramaturgo.

Bortolotto – ao lado de Marcelo Rubens Paiva e Reinaldo Moraes – são alguns dos possíveis nomes para a Feira do Livro de Mossoró City.

Arnaldo Baptista, convidado, agradeceu, mas não vai poder vir.

PROSA

“Dos meus restaram poucos. Dizem que ultrapassados, apegados ao passado, dispensáveis.”

Rodrigo Levino

Perigo Iminente

VERSO

“O sol queima – de sul a norte / Ou no inferno!”

Marina Tsvetáieva

“À felicidade”

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Twist e Twitter


Envelhecer é descobrir que o mundo é lugar dos mais estranhos. Dos mais bizarros. Não assisti em tempo real a onda do twist, mas foi quase como se tivesse visto – e ouvido: o supra-sumo da dança é a musiqueta “Let’s twist again”, que todo mundo sabe ao menos cantarolar o refrão-título. O ano da safra é 61, canta um carinha chamado Chubby Checker. O troço rendeu mais que outra grande onda – o bambolê. Tudo americanada, me dirá o leitor, leitora radical. Por certo, meninos, a América, então hegemonicamente, dominava o mundo, o mundo adorava ser dominado pela América, deus a salve e tudo mais.

O certo é que o twist nunca deixou de pontuar a produção da indústria cultural nas últimas quatro décadas, embora nunca mais com a febre de antão. Ainda assim, não é twist o que dançam Uma Thurman e John Travolta no cultuado “Pulp fiction” (1994)? E não é um proto-twist a alucinada seqüência de abertura para os créditos de “Cidade dos sonhos” (2001), de David Lynch?

Pois, quarenta anos depois do twist assisto, em tempo real – desde que esteja conectado em banda larga, claro – mais uma febre cultural galopante, mais uma alucinação globalizada, mais um chiclete grudado na massa que passa nos projetos do futuro: o twitter.

Todos estão tuítando. Se até o senador Zé Agripino Maia está, é de se esperar tudo e um pouco mais.

Por exemplo: “O deputado federal Felipe Maia (DEM) expressou pelo Twitter sua preocupação com a insegurança generalizada em Natal. E registrou para os muitos seguidores a violência na madrugada da Praça das Flores, no centro de Petrópolis, com assaltos e roubo de automóveis.”

As aspas – como na cartilha do autor – são de Alex Medeiros, que já avisou: não tem mais página no orkut e só se comunica por email ou twitter.
 E se apressou em informar alguns companheiros de tuitagem – o (jornal) The New York Times, e o (jornalista) Jânio Vidal. Um no norte outro no sul.

Mas não pensem que é tudo invenção do demo ou dos democratas tupiniquins e franqueados, embora tenha sido um democrata americano, o black Barack, um dos que acenderam o estopim – reconhecido até por uma multinacional da telefonia celular, em folder publicitário: “Mas a bola da vez é a rede de posts telegráficos Twitter, principalmente depois que ganhou um garoto-propaganda de peso, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que usou a rede de microblogs como um dos pilares de sua campanha.”

Olha as voltas que o mundo dá: agora, salvo engano, nove entre dez políticos deste Ryo Grande usam o troço – pra quê, não sei, mas há de se apegar a alguma coisa, seja lá um santo ou a imagem de uma santa, um festival de quadrilhas ou um showzinho grátis, que os tempos de dentaduras e óculos estão se modernizando e o povo – ah, o povo – também.

Mas, saindo do microblog pro (já velho) blog, tem chamado a atenção como os blogueiros e blogueiras deste Arraial Junino de Quadrilhas Estilizadas se esmeram em ler por primeiro a imprensa do Sul Maravilha pra repassarem a notícia, em “primeira mão” pros leitores nativos. E, nesse ponto, lembram os passos desconjuntados do twist – afinaL, é preciso muito jogo de cintura e rebolado pra se manter no passo.

*

palácio

“Larissa Borges é uma moça muy fina. Gentil, delicada, distribui sorrisos, ‘por favor’ e ‘obrigada’ a quem lhe cruza o caminho. Tem um estilo clássico. Sempre impecável. Educada, não fala palavrão, e durante as fotos ainda descubro que nunca fez aquele gesto clássico com o dedo que Amy adora fazer para os paparazzi. É uma princesa. Que não vive num castelo, mas administra um palácio.” – Gladis Vivane, na revista eletrônica Salto Agulha, sobre as fotos da proprietária do Versailles, em sessão de maquiagem que a transformou em Amy Winehouse.

BEAT IT

A próxima transformação já está agendada: um conhecido publicitário se transformará no (finado) Michael Jackson – enquanto vivo, claro.

THE MAN

Os candidatos-a-qualquer-cargo-2010 bem que podiam se submeter aos pós e blushes e mágicas de Nalva Melo para se transformarem no fenômeno Obama.

FIGA

Se preparem, homens, mulheres e crianças de muita fé: a partir de hoje começam a ser vendidos os ingressos para o show do Padre Fábio de Melo, na livraria do Midway.

Quem for contra a demolição do Machadão e Machadinho pode aproveitar para dar uma rezadinha no, digamos, espetáculo – que vai ser no ginásio, dia 25 de julho, às 21h.

Romântico

A nação Guesa de Sousândrade: uma narrativa em viagem”, de Ana de Santana, é o lançamento do dia – no terceiro piso do Midway? Não, na Potylivros da Salgado Filho, 19h.

PROSA

“Após vários contatos, fiquei sabendo ser muito difícil a comunicação entre os que aqui estão com os que aí ficaram.”

Tácito Costa

Perigo Iminente

VERSO

“Como a serpente olha a velha pele – / Cresci para fora do meu tempo.”

Marina Tsvetáieva

“De nós nada...”

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Paixão


Dizem que a palavra mais bonita da língua portuguesa é saudade. Não, não é bem assim – em verdade: que saudade é palavra única na imensa Babel que sempre foi o mundo, depois da empreitada da Torre. Tá lá, no livro do Gênesis, apenas oito capítulos depois que o barbudo iracundo se aborreceu por uns frutinhos colhidos de uma árvore e achou por bem afastar a concorrência humana e expulsar o primeiro casal do Jardim do Éden.

Vale a pena ver os oito capítulos anteriores, que acontecem na velocidade de uma novela da Globo – dessas que a senadora Rosalba acha por bem elogiar: Caim mata Abel, Adão casa de novo, faz mais um filho, e daí pra frente é um tal de crescer e se multiplicar que faria corar o mais inibido dos coelhos. A moçada também vivia, então, uma vida longeva que era uma beleza (se engana quem pensa que o único recorde significativo é o de Matusalém, 969 anos: Noé chegou aos 950, isso, mesmo com aquela chuvarada toda – morasse ele no Passo da Pátria e eu queria ver). Mas a longevidade não era à toa, claro, afinal nem tinham inventado o tabagismo nem o fast food nem a prestação da casa própria muito menos o Senado Federal e seus segredos.

Bom, geração após geração e oito capítulos adiante, chegamos a Babel, onde o deus cruel do velho testamento volta a se trocar com seus filhos, desta feita preocupado com a possibilidade prática de eles adentrarem o céu sem a ajuda divina e a intervenção terrena dos franqueados instalados nos templos de adoração. O velho achou por bem confundir tudo e cada qual ter sua língua própria. A Torre de Babel ficou feito aquele hotel da Via Costeira, só o esqueleto. Daí pros portugueses foi um passo, e pros brasileiros um pulo atlântico mal sucedido.

Daí vem a saudade, palavra triste quando se perde um grande amor – e a definição, minha mesmo não é: é de “Primeiro amor” e nem desconfio quem seja o autor da letra e canção, mas que tem um eco de Paraguay, ah, isso tem.

E um grande amor o que é? Paixão, né? Então, por isso, vou ficando com essa como uma das minhas preferidas da língua portuguesa, e se réie pra lá a sua suposta falta de exclusividade internacional – em italiano, “passione”, em francês e inglês, “passion”, tudo farinha do mesmo embornal. O que não deixa de ser uma mão na roda para a nossa comunicação futura, capital mundial de 2014 que já somos. Quanto à Babel-Arena das Dunas, isso é outro papo.

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PASSIONAL

A propósito, tem raízes passionais o enredo do livro que Cassiano Arruda Câmara lança hoje, 19h, no terceiro piso do Midway. Contrariando a máxima casa-de-ferreiro-espeto-de-pau, o lançamento contou com estratégias de publicidade: além de anúncios de jornal e comerciais na TV, foram espalhadas cartas fictícias entre os livros da Siciliano, convidando para hoje.

PASSION

“Paixão à la mode” é também o enredo da nova Mag!, nas bancas, assombrosos mas válidos R$ 18,90.

Uma penca de casais apaixonados desfila pelas páginas, entre outros Gertrude Stein-Alice B. Toklas, Serge Gainsbourg-Jane Birkin, Edith Piaf-Marcel Cerdan, Jean Cocteau-Raymond Radiguet (o primeiro e o último notoriamente gays).

MADAM

Escapando da paixão, a Mag! dedica ainda 12 páginas aos poemas visuais de Guillaume Apollinaire, o garçon do surrealismo, enquanto Eduardo Logullo explica “por que toda madame é determinada, personalista e apaixonada pelo que faz” através dos perfis e fotos de 17 madames famosas, entre elas a inconfundível Bovary.

CURA

No editorial, o alerta, que todo apaixonado desdenha: “A paixão é um vício que pode fazer mal. Quando é rejeitado, o apaixonado passa por sofrimentos fisiológicos. Os circuitos cerebrais relacionados à tomada de decisões arriscadas e os ligados à dor física tornam-se ativos. Hoje, a dor da paixão é levada a sério pela ciência.”

Desconfio que não são só os rejeitados que precisam de Dama Ciência, não. Enfim, a Fapern de Dona Isaura bem que podia investigar o caso.

Revistas

Falando em Fapern, a fundação lança duas revistas (Ciência Sempre e Perigo Iminente), um livro (Bom dia padre João Maria) e abre a exposição “Por quê a matemática”, tudo de uma tacada só: próximo dia 9, hora 18, no SEBRAE.

PROSA

“Vejam vocês, pois só se pode ver Natal com olhos de relâmpago.”

Carmem Vasconcelos

Perigo Iminente

VERSO

“Beijo-te – através dos cem / Anos que nos separam!”

Marina Tsvetáieva

“De nós nada...”