sábado, 24 de janeiro de 2009

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Manoel Onofre Junior

Em 1979 o sobrescrito tinha 12 anos e os livros da editora Clima já rondavam as estantes da casa dos meus pais. À época um dos poucos que li e não esqueci foi “Breviário da Cidade do Natal”, de Manoel Onofre Junior, com capa e ilustrações internas com o traço inconfundível de Dorian Gray Caldas (inconfundível, também, a marca da editora, com o nome “Clima” sobre o mapa elefantóide deste Ryo Grande). Era um livrinho simpático, despretensioso, quase um pot-pourri de tudo o que de mais peculiar tem a nossa história. E findava com um “Guia sentimental da cidade”, escrito por Newton Navarro especialmente para o “Breviário”.
Infelizmente, nem o guia de Navarro nem as ilustrações de Dorian se repetem no “Guia da Cidade do Natal” (praticamente um “Breviário” em trajes novos ou renovados), que o Sebo Vermelho relança, hoje, entre as dez da manhã e o pingo do meio-dia na Poty Livros da Cidade Alta – a mesma Cidade Alta, aliás, que intitulava os versos de Newton Navarro: “Terno coração de pedra,/ mas,/ pedra de sentimento/, que de tanto amor/ em duro granito se tornou.”
O texto que segue é um dos que foi quase que completamente modificado em relação ao seu equivalente no “Breviário” – afinal, o original está completando três décadas neste Zero-Nove e, então, a cidade ainda não se assanhava tanto como hoje com construções verticais, que se contavam nos dedos: era a época da construção do Chácara e do Rio Mar, ambos na Deodoro (“dois mastodontes de concreto e vidro fumê”, nas palavras do autor, e que prenunciavam “a selva de pedra”, “o triste retrato na parede”).
(Embora, sim, outros aspectos não tenham mudado – em 79, Onofre escrevia: “Colunistas sociais costumam chamar Tirol e Petrópolis de ‘bairros elegantes’. Aí vive a fina flor da burguesia e, também, algumas pessoas que, simplesmente, querem morar bem. Bairros novos, sem caráter, esses.”)
Aproveitem, pois, o café-da-manhã com Manoel Onofre e sigam depois para a Poty:

DEVASTAÇÃO DO VERDE
Em visita a Natal, o escritor Mário de Andrade definiu a cidade com estas palavras:
“... é um encanto de cidadinha clara, moderna, cheia de ruas conhecidas encostadas na sombra de arvores formidáveis.”
Mário esteve aqui em 1928.
Hoje, decorridos 80 anos, a população multiplicou-se, as ruas encheram-se de veículos, espigões agridem a paisagem, mas a urbe ainda conserva um pouco daquela aparência bucólica.
É verdade que, das árvores formidáveis, restam apenas algumas na Rua Jundiaí e na Praça André de Albuquerque. Mas cajueiros, mangueiras e outras fruteiras resistem nos quintais, e quase sempre se cuida da arborização pública – acácias, jambeiros, etc.
Não há dúvidas: sob este aspecto, Natal é uma cidade privilegiada. E ainda tem o Parque das Dunas, a segunda maior floresta urbana do país.
Como bem dizia Mário de Andrade:
“É capital, se sente que é capital, o que firma bem a sensação de conforto praceano, tudo à mão, e ao mesmo tempo, tem ar de chacra, um descanso frutecente, bolido de ventos incansáveis.”
É isso aí.
Mas, não devemos ter ilusões quanto ao futuro, pois inexiste uma mentalidade coletiva de respeito ao meio ambiente.
Dia desses, em Ponta Negra, um ponto do Morro do Careca pegava fogo, mas somente duas ou três pessoas se incomodaram em tomar providências. As demais – dezenas, centenas – pareciam nem estar vendo aquilo. Negócio de apagar incêndio não era com elas. “Uns matos queimando, coisa sem importância...”
A mesma insensibilidade transparece no mau hábito, que o natalense tem, de jogar lixo e metralha em terrenos baldios.
Há anos, a Prefeitura mandou botar abaixo todos os pés de fícus da cidade. motivo: estavam empestados de lacerdinhas. Solução “genial”, em vez de se combater a praga de insetos.
A retirada de areia das dunas, para uso na construção civil, tem se constituído, também, numa ameaça – tão grande quanto a poluição do rio Potengi.
E que dizer de outra espécie de poluição – a predial, que asfixia a cidade?
Numerosos arranha-céus foram construídos, nos últimos anos, a maioria em Petrópolis, Tirol, Candelária e Ponta Negra. Esses mastodontes de concreto e vidro começam a proliferar em outros bairros da classe média. A paisagem vai ficando emparedada, e o clima cada vez mais quente. Inúmeros outros problemas decorrem desse crescimento vertical desenfreado, inclusive a contaminação do lençol freático. Ambientalistas e urbanistas sabem muito bem disso.
Infelizmente, tudo indica que aquela Natal, encanto de Mário de Andrade, dentro em breve será, como a Itabira de Drummond, apenas “um retrato na parede”. Doerá tanto como já doem estes versos de Ferreira Itajubá:
“Natal é um vale branco entre coqueiros:/ Logo que desce a luz das alvoradas,/ Vão barra afora as velas das jangadas,/ Crescem no rio as trovas dos barqueiros.” [Manoel Onofre Jr]



PROSA
“Manoel Onofre Jr., pesquisador munido de discreta tenacidade, é também exemplo que busquei seguir.”
Tarcísio Gurgel
Informação da literatura potiguar
VERSO
“Escrever para abrir o leque.
Eis minha meta.”
Marize Castro
“Escrever”

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Uma noite no Catombo (e II)

Deixei meus leitores derna de ontem no banheiro do Bar de Pedrinho Catombo. Quero dizer, eu estava lá, não vocês. E, não, não pensem que foi a mijada mais longa da história – é que não cabia neste espaço tudo o que sucedeu naquela noite. Daí que continuo de onde parei, isso, no banheiro: onde eu pensava em como tudo aquilo lembrava a decrepitude exótica de Havana, Cuba. E que logo ali, quase que por trás daquelas paredes, estava o centro do poder municipal (e a pouquíssimos metros do Legislativo Estadual).
E eu fiquei pensando se um dia a neo-prefeita-eleita desceria do bolo-de-noiva-enfeitado que é o prédio da prefeitura e se arriscaria a uma cerveja no Bar de Pedro Catombo, seu vizinho. Ah, seria legal, sério, tenho certeza de que seria mui bem recebida, afinal, a moça é muito simpática às massas. Pensei tudo isso enquanto esvaziava a bexiga, que, claro, vazia ficou, e como batiam à porta espanei a poeira dos pensamentos e voltei para o asfalto da Rua São Tomé, quase esquina com a Ulisses Caldas.
Mas não por muito tempo: veio a chuva, num estrondo, como se fim do mundo fosse. E da chuva vieram, primeiro as biqueiras, grossas, fartas, cachoeiras do céu; depois, a enxurrada, arrastando sobre o asfalto um mundo de coisas, coisas do mundo. E as coisas do mundo eram líquidas e quem restou mudou-se para dentro do boteco.
Onde Isaque Galvão cantava. Não um choro, mas um samba. Ali, em meio aos tamboretes e mesas, o artista brilhava mais que num palco iluminado. Nunca vi um Isaque Galvão tão inspirado. Alguém se assombrou: “Parece até que ele tem um microfone na garganta!”
Verdade. A voz saía límpida, audível, emergia das ondas sonoras sem esforço, plainava sobre nós, como estrelas por trás das nuvens cor de chumbo. (Não preciso revelar quantas cervejas tomei, claro, mas o clima era por aí e pelo tom denunciado que dispensa o bafômetro.) E eu ainda imaginei que ele incorporaria um Ed Motta e começaria a cantar “Do you have other love?” – mas aí seria querer demais.
No entra-e-sai, Dona Damiana, da Escola de Samba Balanço do Morro, lembrou da homenagem a Fernando Luiz, o autor de “Garotinha” e pai da garotona Fernanda Tavares, para a Festa da Carne deste ano. As meninas queriam saber se Murilo Rosa apareceria. Não, não. Não apareceu, ontem, na quadra da escola, Rocas. Como também ainda não apareceu dinheiro da prefeitura para o carnaval deste ano, me confidenciou Damiana, baiana-potyguar.
No entra-e-sai, surge Zé Dias – “só pra prestigiar, Zizinho”, faz questão de dizer, botando lenha no mote “eu só acredito em evento cultural assim: ou com muito dinheiro ou sem dinheiro algum”. O choro do Catombo, claro, na segunda hipótese.
No final, ainda deu pra fazer um périplo Bardallos-Cervantes-Bella Napoli.
Vez por outra a capital do Ryo Grande é uma festa.
*
CHOROS
Em seu “Panorama da música popular brasileira na ‘Belle Époque’”, Ary Vasconcelos vai contra a idéia comum levantada por muitos (entre eles José Ramos Tinhorão) de que o chorinho era filho da melancolia: “Quer-me parecer, antes, que a palavra ‘choro’ nesta acepção, deriva de ‘choromeleiros’, corporação de músicos, e que teve atuação importante no período colonial brasileiro.”
Mas cita também Cascudo (infinitas vezes), para o qual choro vinha de “xolo”, bailes de negros nas fazendas – “por confusão com a parônima portuguesa, passou a dizer-se ‘xôro’, e, chegando à cidade, foi grafada choro, com ch.”
LÁGRIMAS
Pois, de choro verdadeiro trata o filme criado pela Base Propaganda para a Liga Contra o Câncer. Procurem no YouTube ou na página www.nosfazemosevoce.com.br.
Mas enquanto mais de 3,5 mil pessoas já tinha assistido o vídeo no YouTube, o número de pessoas que fizeram sua doação na página da Liga não chegava nem a meia centena.
Insensibilidade, veraneio ou crise?
A turma dos parrachos bem que podia rodar a sacolinha, entre um 12 anos e outro.
MARROM
Mais uma oportunidade para assistir a “Coisa de preto” da brown Khrystal. Hoje, Praia Shopping, 20h30.
CINE
Estréia hoje “Hannah sobe as escadas”. No Moviecom, 15h45. E “Austrália”, com Nicole Kidman, nas duas cadeias da cidade, vários horários.
ALANIS
Quem não puder embarcar para Recife ou Fortaleza, pode entrar no clima Alanis Morissette por estas ribeyras mesmo: amanhã a banda Electra mais os DJs Alex Myself e Iran fazem festa na boate Edifício Club, Rua Frei Miguelinho, Ribeira.
FAB FOUR
Amanhã tem Beatles Abbey Road, banda cover adivinhe de quem – no Vila Hall, Hotel Vila do Mar, Via Costeira. Para mais informações, liguem 3646.3292.
Segundo o release, os músicos “utilizam a única coleção completa de instrumentos musicais e amplificadores existentes no mundo”, o que inclui as guitarras usadas por John Lennon e George Harrison, três contrabaixos usados por Paul McCartney, e algumas das baterias usadas por Ringo Starr.
BOLACHAS
O Radiohead lança em abril 12 singles. Em vinil.



PROSA
“Chove? Não: chora. Chora na cidade como chove em seu coração.”
Alan Pauls
História do pranto
VERSO
“nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.”
Maiakóvski
“Lílitchka!”

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Uma noite no Catombo (I)

O título aí em riba não tá muito correto, não – o certo seria “Uma noite em Catombo”, talvez. E o que danado é Catombo? O mesmo que “calombo”, “inchaço”. É. Mas também é o apelido de Pedro Faustino da Costa, Pedrinho Catombo, pois. Aliás, era. Pedrinho morreu em meados do último dezembro, antes do Natal.
Um ano atrás, em crônica de 19 de janeiro, eu anotava, lá pelas primeiras linhas: “Vlamir Cruz bateu asas em Ponta Negra e provocou terremotos nas quebradas mais altas da Cidade Alta: no Bar de Pedro Catombo, um dos quartéis-generais de Abimael Silva, só o que se falava era nas histórias de trancoso de ‘Paêbirú’, o disco de Lula Côrtes com José Ramalho.”
Pois. Passou-se um ano e pouco estive no Catombo, umas duas ou três vezes, máximo. Melhor assim: quando a gente volta, volta com gosto. E o gosto da noite de ant’ontem era de cerveja gelada. Acompanhada de choro, chorinho. Uma dissidência, dizem, do Buraco da Catita. Prefiro a versão – mais ingênua, talvez – de multiplicação. Crescei e multiplicai-vos, então, esses encontros espontâneos dos artistas e boêmios, longe do poder público.
Antes, passagem demorada na Confeitaria Atheneu, pra saborear a paçoca de Dona Silvia – não sei se a melhor ou uma das melhores da City, mas que a danada é boa, isso é. E a cerveja sempre gelada. E o orelhão na calçada que toca e Dona Silvia atende, com a mesma paciência e calma com que serve bebidas e tira-gostos.
Mas a turma que conhecer o bar de Pedrinho: um paulista radicado em Portugal, um norueguês e três amigas do peito. E lá vamos nós pra Rua São Tomé, que imagino ser aquele santo que tudo tinha que ver pra poder acreditar.
Mesmo sem ter visto, acreditem: o choro tava bom, a cerveja ainda mais gelada, o público não era o caos do Buraco da Catita, as notas de K-Ximbinho alegravam os corações e a bexiga exigia uma visita ao mictório, pois. E eu que até então nunca tinha entrado no banheiro do bar. Que não existe, quer dizer, existe, mas é no final do corredor de uma casa ao lado. Sem essa de masculino ou feminino, a igualdade dos gêneros é o que há. Enquanto esperava na fila – pequenininha, diga-se – me veio em mente um papo com o norueguês, que tinha visto minha camiseta do El Floridita, o mais-que-famoso bar de Havana, Cuba, freqüentado por Hemingway. Ele me dizia que era preciso ir à Ilha antes que o negócio degringolasse após a morte de Fidel. Daí que eu fiquei pensando que, na falta de pesos, dólares ou euros para ir a Cuba, uma visita ao Centro Histórico desta Capital Espacial já compensa a pobreza de quem não pode renovar o passaporte.
E pensei que logo ali, praticamente por trás daquelas paredes, estava a prefeitura municipal desta Cidade de Reis e Rainhas. E que nem todos pesavam mais de cem arrobas, e que nem todas eram núbeis impossibilitadas do casório – como é exigido aos candidatos a Rei e Rainha do carnaval multicultural.
Continuo amanhã, se deus quiser e o diabo permitir.
*
ESPERA(NÇA)
“Naquela esplanada onde já houve um mercado de escravos, o movimento de quem chegava para a festa da posse de Barack Obama começou quando ainda era noite e a temperatura estava a -7°C, suficiente para congelar a água das garrafinhas. Nada havia para fazer senão esperar várias horas. Mas aquela gente esperou séculos.” – Elio Gaspari, que sabe escrever e sobre o que escreve, resumindo em poucas palavras o significado do dia de ontem, na Folha de Sampa.
FULLBRIGHT
Começa hoje e vai até o 19 de fevereiro a exposição fotográfica “Impressões visuais”, promovida pela Fulbright Brasil, comissão para intercâmbio educacional entre os Estados Unidos e o Brasil, que comemora meio século nesta terra onde se plantando tudo dá.
São 126 fotos, em cor e p&b, 17 delas agraciadas com importantes prêmios, como o Pulitzer, Esso e World Press Photo.
FULLBRIGHT II
A mostra abre logo mais às 17h30, com uma visita guiada pelo seu curador, João Kulcsár.
No Museu Café Filho, Rua da Conceição, 601, Cidade Alta, de terça-feira a domingo, das 8 às 17 horas.
SUNDOWN
Galvão Filho informa que também ele faz parte do projeto “Pôr-do-sol no Potengi”, às terças, quartas e quintas, sempre das 17h às 19h, no Iate Clube desta Capital.
Um bom programa, recomendado por amigos insuspeitos, independente da presença anunciada das ditas “celebridades locais” (mais da metade, claro, políticos).
Pois, hoje é quinta. E o sol há de se pôr. Mesmo entre nuvens.
AU AU
Começou a turnê brasileira de Alanis Morissette. Ontem, em Manaus, a primeira de 11 cidades (as mais próximas deste Ryo Grande, Recife e Fortaleza). A cantora veio ao Brasil com seus dois chihuahuas e exigiu vinhos das uvas syrah, sangiovese, pinot noir e rioja, além de uma garrafa de tequila Don Julio Reposado e água mineral das marcas San Pellegrino e Evian.
Suponho que para ela, não para os cães.
AGULHA
Não vão faltar oportunidades para quem quiser assistir ao documentário “Valentino, o gênio da alta-costura: estréia hoje, 21h, na GNT, com reapresentações dias 23 (3h), 24 (7h e 20h), 26 (11h) e 27 (14h).



PROSA
“Chega um choro. Clarineta, violões, ganzá numa série deliciosa de sambas, maxixes, varsas de origem pura, eu na rede, tempo passando sem dizer nada.”
Mário de Andrade
O turista aprendiz
VERSO
“Num beijo triste eu percebi que a sua intenção era fatal”
Del Loro
“Sonoroso”

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Babás, aias, amas

Ontem noticiei o novo blog da psicóloga Jemima Morais Veras – é de lá que extraio o que se segue:
“A dinâmica de trabalho de uma babá traduz o quanto é difícil sorrir quando se está triste, correr quando o cansaço toma conta do corpo, brincar quando a vida se encontra tão dura, colorir quando o mundo se mostra cinza, ser suave quando se carrega nas costas o peso de tantos problemas, ser compreensiva quando não compreendemos nem a nós mesmos, dar carinho quando estamos amargos, dar colo quando estamos inseguros e assustados, demonstrar organização quando nossa vida está confusa e tudo parece estar fora do lugar...”
Eita, que vidinha complicada a das babysitters, hein!? Duvi-de-o-dó que as madames pensem nisso quando tratam com as preceptoras de seus rebentos. Dúvida que vem provavelmente instigada pela visão recente de um filme, na TV a pagamento: “Diário de uma babá” (2007), com a bela Scarlett Johansson – recomendável, aliás, para todas as lulus do Arraial de Palumbo. E, como se trata de Johansson, recomendável, também, pros bolinhas: dona Scarlett, com aquele rostinho de quem acabou de sair do banho, encarna a babá que todo varão, dos oito aos oitenta, gostaria de ter.
“The nanny diaries”, título original, foi inspirado num besteseller escrito por duas babás americanas, que aproveitaram suas experiências na porção mais chique de New York City – Manhattan, claro – para tirar uma onda com suas ex-patroas.
Essa é a grande diferença do filme entre o porrilhão de congêneres que versam sobre o tema: enquanto a maioria não passa de comédias mais que leves que tratam de garotas que tomam conta das crianças apenas em determinados períodos do dia (o termo correto seria “babysitter”), este “Diário de uma babá” investe acidamente contra a alta classe novaiorquina (muito parecida, aliás, com a média classe potyguar) – ainda que preserve o tom de “filme bobinho”. Ou seja, a personagem de Scarlett não é uma babysitter, mas uma “nanny”, artigo literalmente de luxo no primeiro mundo, que dorme no emprego, acompanha o pimpolho pra lá e pra cá, e faz o papel da mãe psicologicamente ausente (uma perua entediada com a vida fútil e mais preocupada em manter um casamento que está indo pras cucuias).
Nannies ou babysitters são um dos temas preferidos de Hollywood, inclusive em versão macho man: em “Uma babá quase perfeita” (1993), Robin Williams se veste de mulher para poder ficar perto de seus filhos. Em “Operação babá” (2005), o truculento Vin Diesel não se traveste, mas disfarça seu corpo de fuzileiro naval para cuidar dos filhos de um cientista e proteger importantes segredos de estado. Uma década antes, o musculoso Schwarzenegger já se infiltrava como “Um tira no jardim de infância (1990), a fim de capturar um traficante de drogas. E Emma Thompson escondia sua beleza discreta em “Nanny McPhee, a babá encantada” (2005), num clima mais de conto de fadas, cuidando dos sete filhos de um pai viúvo.
Sem falar, claro, na “Supernanny”, uma espécie de Big Brother das babás, que pretende ensinar aos pais como domar suas ferinhas. Existe, inclusive, uma versão brasileira, exibida – onde mais? – no SBT (por aqui, TV Ponta Negra), com uma argentina fazendo o papel da nanny.
“O problema mais comum é que atualmente os pais não sabem assumir a autoridade. Isso realmente aperta o meu coração. As crianças não têm mais limites”, comentou a superbabá no sítio da emissora.
*
PONTEIROS
Pois: como a neo-prefeita-eleita – dizem as folhas, não eu – não consegue chegar no horário em nenhuma reunião, não seria de bom tom contratar uma supernanny para cuidar da moça?
BORBOLETÊS
Os neo-vereadores-eleitos, aliás, deveriam se inspirar em Virgínia Ferreira e desmascarar certas fantasias que antecedem o carnaval.
“Quimera”, “balão de ensaio”, “papel carbono”, “cortina de fumaça”, foram algumas expressões usadas pela ex-secretária de Planejamento para colar na nova administração – como faz falta uma Virgínia na Câmara!
QUASE
Em se falando em carnaval, a Funcarte inova: enviou email com o curioso título “Programação do Carnaval Multicultural 2009 quase fechada”. No corpo do email, a ordem dos fatores não altera o produto: “Parte da programação do Carnaval 2009, realizado pela Prefeitura através da Funcarte, já está fechada”.
Como assim, “quase”? “parte”?
É a pré-divulgação da pré-programação.
Um dia a gente chega lá.
LOST
“A borboleta me parece mais perdida que pitomba em boca de banguela.” – de um observador da cena local a algumas milhas de distância da City.
TIM
O sobrescrito sente-se, não ainda um imbecil a menos, mas, menos imbecil: a TIM resolveu resolver meu problema – contado em duas ocasiões neste espaço e criado pela própria empresa, aliás.
DAVI
Em momentos como esse eu gostaria de ser um daqueles jornalistas de antanho, sair da redação em disparada, entrar nas oficinas gráficas e berrar: “Parem as máquinas!”
Tudo isso porque nasceu Davi Leitte. Filho da Super-Claudinha, ora.



PROSA
“Quando minha mãe se casou, ela fez parte do dote, juntamente com alguns outros escravos.”
Magdalena Antunes
Oiteiro
VERSO
“Tão meninas e tão barrocas,
de graça muita, alegria pouca”
Myriam Coeli
“Variações para rondó”

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Triângulo de bermudas e de biquíni e sunga

Nestes tempos de veraneio nem tudo se resume às novas e potentes lanchas nos parrachos do horizonte azul-atlântico: o velho e indefectível cavaco chinês ainda vinga à beira dos alpendres, acompanhado pelo inseparável estribilho metálico e monótono do triângulo, peça musical sem novidades ou variações desde que o sobrescrito a ouviu pela primeira vez, quando ainda estava nos cueiros, o que prova como o troço é antigo.
A baqueta bate e volta nos três lados do triângulo, anunciando o produto e promovendo suas vendas. Não é preciso outro anúncio vocal.
Não me peçam que eu destrinche aqui as origens do cavaco chinês, nem enquanto maravilha pobre da culinária, tampouco em relação à denominação de origem. Por que cavaco? Por que chinês?
Cavaco é uma apara, lasca de madeira. Soa muito português de Portugal – mas não sei se por influência inconsciente, lembrança do nome daquele primeiro-ministro, Cavaco Silva, hoje presidente. O que é certo é que, antigamente, muito antigamente, Portugal tinha dominações lá pelos lados da Ásia, Macau a mais famosa.
Terá sido lá que nossos descobridores aprenderam a receita, levaram para o Reino e de lá a propagaram pelas outras colônias? Ou terá sido um chinesinho, clandestino numa nau portuguesa, a vender o produto em Lisboa? Ou, nada disso, não houve o atravessador português e foi um chinês que veio dar com os costados diretamente em Terra brasilis e por aqui andou vendendo seus cavacos?
Sei lá. O que sei é que o cavaco chinês tem o sabor imutável do passado transportado ao futuro sem grandes variações. O algodão doce, por exemplo, mudou, mudou bastante – e como mudou. Esses, que se comem nas festas de aniversário de hoje não têm o mesmo sabor daquele que comíamos na infância, quando o vendedor era um velhinho de idade indefinível empurrando sua carrocinha de madeira e folha de flandres e anunciando o produto com o requinte poético da metáfora: “Barba-de-papai-noel”.
O que sei – e que conste dos autos deste verão Zero-Nove – é que os vendedores ambulantes de cavaco chinês sobrevivem ainda nesta primeira década do século 21. Não são tantos, com certeza, quantos os vendedores do picolé de Caicó. Estes, uma peste, pois, enquanto os “cavaquistas” (ou “cavaqueiros”) apenas fazem triangular sua música, os picolezeiros caicoenses anunciam seu produto em alto-falantes artesanais em alto e péssimo som. No início soava engraçado ouvi-los dizer “calma, calma, não precisa empurrar” – como se a procura pelo sorvete fosse tão grande que se formavam filas caóticas diante do carrinho (de fibra de vidro). Daí que, quando íamos procurar nossa dose de frio, víamos o carrinho sem viv’alma ao redor.
Dia desses, o sobrescrito ouviu pela primeira vez a quebra de uma tradição: o som metálico-triangular era o mesmo de sempre, mas, quando a vibração se interrompeu, a vendedora proclamou, como se necessário fosse: “Cavaco chinês! Cavaco chinês!”.
No final das contas, hoje, talvez seja realmente necessário o pregão – ou para disputar o mercado equanimente com outras guloseimas, ou, quem sabe, para explicar às novas gerações o que danado é aquele tengo-telengo-tengo.
*
SEM FRONTEIRAS
Repito aqui, agora e hoje, o que disse há 12 dias: ou sou um imbecil ou um imbecil – como qualquer cliente TIM. Há 15 dias aguardo uma resposta da empresa, e ontem tentei ligar para o asterisco-um-quatro-quatro cinco vezes. A TIM é uma multinacional com milhões de clientes no Brasil e no mundo – o que prova que a imbecilidade não tem, definitivamente, fronteiras.
VERSOS
Cefas Carvalho anuncia para hoje a premiação dos poetas vencedores do 4º Concurso de Poesia Zila Mamede – em primeiríssimo lugar, Wescley Gama, em segundo Elizabeth Rose, e Adélia Danielli em terceiro.
Na Siciliano do Natal Shopping, a partir das 19h. “Quem gostar de letras e encontros poéticos, não pode perder”, avisa Carvalho, que estreou blog na rede: www.cefascarvalhojornalista.blogspot.com.
PSICOBLOG
Também com blog novo, a psicóloga Jemima Morais Veras – onde pode-se ler, entre outras coisas, alguns conselhos modernos aos pais. Confiram em www.jemimaveras.blogspot.com.
JOTABLOG
Já J. Gomes pergunta e responde: “Quer fazer um aposentado feliz, é simples. Acesse e divulgue este humilde endereço eletrônico, www.jgomesabc.zip.net. Ficarei extremamente feliz. Dá aos pobres é emprestar a Deus.”
LEI-TURA
É hoje que representantes do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) se reúnem com o professor Elias Nunes, secretário municipal de Educação desta Capital, a quem entregarão o texto da Lei de número 9.169, que dispõe sobre a “Criação da Política Estadual de Promoção da Leitura Literária nas Escolas Públicas do Estado do Rio Grande do Norte”.
O IDE é uma ONG que busca o fortalecimento da escola pública, tornando-a capaz de oferecer uma educação básica de qualidade social para seus estudantes.



PROSA
“O fato de existir um futuro neste país torna o ambiente mais despreocupado e cada indivíduo menos aflito e excitado.”
Stefan Zweig
Brasil um país do futuro
VERSO
“Concedi aos meus pulmões todos os sons, exceto o urro”
Iósif Bródski
“24 de maio...”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Do sábio caminho à burrice no meio do caminho

ORÁCULO
Roberto Otsu lança hoje, Midway Mall, 19h, “O caminho sábio”, tradução comentada do “Tao-Te-Ching”, de Lao-Tsé, escrito no século VI a.C.
São 81 aforismos mais um baralho ilustrado que serve como consulta oracular.
Pelo currículo, Otsu parece caminhar além do ramerrame da auto-ajuda: graduado em Comunicação Social e em Arte-Educação, estuda a sabedoria chinesa há mais de três décadas, com especial interesse no “I Ching”.
PRESERVAÇÃO
Começa hoje e segue até o 29 deste janeiro o projeto “Escola do Patrimônio”, a cargo da Fapern e do Igetur – Instituto de Formação e Gestão em Turismo deste Ryo Grande, que vez em quando tem alguma sorte.
Mais de um cento de professores de História, Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Cultura do RN, História do RN e Artes, de escolas públicas e privadas, de ensino médio e superior, se inscreveram.
O objetivo é definir posturas preservacionistas e de valorização dos sítios culturais, minimizando a ação de vândalos, os roubos e as depredações ignorantes. O curso acontece no Instituto Kennedy e tem entre os professores a competência de nomes como Paulo Heider, Vicente Vitoriano, Helder Macedo e Simone da Invenção.
PESCA
O artista plástico, escultor e empresário Taciano Arruda volta às suas origens natalinas, mais especificamente à Cirolândia: mudou, de malas, cuias e plainas, a sua Tac Art da Bernardo Vieira pra Rua Tuiuti, onde foi menino (ali pelo começo, quase em frente à Unicred,).
E comemora o fim da restauração que ele mesmo providenciou em sua escultura “A ida e a volta”, homenagem aos pescadores de Pirangi do Sul, há anos fincada naquela praia.
Escultura, aliás, ponto turístico dos visitantes, que sempre se fazem fotografar diante das formas coloridas.
Q.I.
Diálogo entre amigos, no Messenger:
“– ... e por aqui a competência não sobrevive à falta de indicação.”
“– Pior: a incompetência sobrevive graças à indicação.”
COPIA&COLA
Diálogo, aliás, que poderia ser reproduzido na série “Control C control V”, da Microsoft, com exibição na famigerada rede-mundial-de-computadores. Os episódios são inspirados em diálogos do Msn enviados pelos próprios usuários. O programa já está em seu terceiro capítulo, com patrocínio publicitário de grandes empresas.
AXÉ
“Vivíamos os tempos de panelas, guetos, indicações, nepotismo e muita corrupção. Pelos corredores dos órgãos públicos responsáveis pela cultura o que se via e sentia eram medo, rabos presos e silêncio.” – calma, calma, todos tranqüilos: a frase não é de ninguém deste Ryo Grande, mas de um artista baiano, na CartaCapital desta semana.
Por aqui, como se sabe, ainda não se pode conjugar, tranquilamente, o verbo no passado.
VIDEARTE
Termina amanhã as inscrições para a mostra de vídeo arte da Fundação Capitania das Artes dentro da programação do Prospecta 2009 – que acontece nesta Capital Espacial, de 20 a 23 deste mês estivo.
Mais informações, programação completa e a ficha de inscrição podem ser obtidas na página www.prospecta2009.blogspot.com.
Paulistas ligados à performance, intervenção urbana e políticas públicas – como Daniela Labra, Flávia Vivacqua e Eduardo Verderame (do Coletivo Eia, Experiência Imersiva Ambiental) – vêem a Natal para debater com os nativos daqui ou aqui radicados – entre eles Civone Medeiros, Henrique José, Jefferson Alves, João Natal e Zé Frota.
Antes dos debates, serão exibidos os vídeos da mostra, das 18h às 21h.
À tarde, no Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, Praça Augusto Severo, Ribeyra, rolam oficinas – de performance, intervenção urbana e fotografia, pois.
ICEBERG
Por baixo da briga de foice político-eleitoreira que já começa a se desenhar no horizonte deste Ryo Grande – idos de 2010 – entre governadoráveis e senadoráveis, outro rabisco se anuncia: as equipes do famigerado marketing (que tudo pode, tudo sabe, tudo vê, tudo anuncia) já começam a ser montadas. Até lá muitas águas rolarão, na esteira do aquecimento, não global, mas eleitoral.
CAJU INSOSSO
“Toda uma população não pode ficar adorando uma árvore que nem indiano adora vacas.” – de Geraldo Batista, que se diz meu “leitor fiel”, sobre crônica da semana passada. Batista lembra que o cajueiro de Pirangi é já o maior do mundo, podendo, pois, ser podado, “para crescer para cima e não para os lados”.
No mesmo tom de revolta, Luiz Carlos Nogueira critica governantes e autoridades policiais que, segundo ele – e eu também – “não estão nem aí para a bagunça que reina em Pirangi” (que não se resume aos galhos do maior-do-mundo).
“O que falta para solucionar esse problema, é um político de coragem e vergonha”, lembra seu Luiz.
E eu lembro a todos que o coitado do cajueiro não pode virar nem vaca indiana nem bode expiatório: é uma árvore, Reino Vegetal se aprendi bem nas aulas de Ciências, e, portanto, não fala, não berra, não geme, nem pensa – nem tampouco pode se podar a si próprio.
(Ainda: lá pras bandas dos conjuntos Ponta Negra e Alagamar, por exemplo, o problema se repete – e não existe por ali nem caju nem cajuada.)



PROSA
“Não me dói senão ter-me doído.”
Fernando Pessoa
Livro do desassossego
VERSO
“Por que então, como outrora, a linguagem
não se encurta aos limites do soneto?”
Novella Matvêieva
“Invejo o tempo...”

sábado, 17 de janeiro de 2009

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Normando Bezerra

Aí vem o sobrescrito aqui neste espaço, onde costuma ser tão crítico com o alheio, e, vez por outra, troca alhos por bugalhos. Uma das últimas foi citar o Rei Roberto Carlos (e o príncipe Erasmo) em “Sua estupidez” (que ninguém me ouça que a prefiro na voz de Ná Ozzetti). Lá pras tantas a canção diz “Não dê ouvidos à maldade alheia e creia/ Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo”.
Pois, eu coloquei alguns “motivos” em lugar de “ouvidos” – e Sigmund há de explicar.
Enquanto isso me escreve José Normando Bezerra, elogiando a citação, mas também me corrigindo, claro. O erro era tão visível que não precisou nem se apresentar como presidente do fã-clube “Além do horizonte”, desta Capital.
Ora, um presidente de fã-clube do Rei é lógico que tinha que ser convidado para este breakfast. Com vocês, pois, o “pauferrense, geógrafo, professor, ariano, serpente no horóscopo chinês, romântico, saudosista, católico-espírita, esotérico” – como ele mesmo se apresenta –, José Normando Bezerra (além de fundador de um bocado de agremiações: da torcida organizada do Alecrim FC – FERA, Fieis Esmeraldinos Radicais –, do Partido Verde do RN, da Confraria “1968 – o ano que vivi”, do bloco de carnaval Cheiro de Alecrim, em parceria com o amigo Edmar Viana, e, por último mas nem por isso menos importante, do fã-clube de Roberto Carlos, em Natal).
Paixões que o levaram a batizar as filhas como Mircela (“Alecrim” invertido) e Roberta (adivinhem em homenagem a quem).
O REI E AS MULHERES
Nos anos 90 li uma entrevista de uma colega de trabalho na qual ela afirmava que nunca assistiu a um show do cantor Roberto Carlos e que não tinha nenhuma vontade de assistir. Eu, que já participei de cinqüenta e cinco shows do Rei, pensei com meus botões:
– Puxa vida, um homem não gostar de Roberto Carlos até entende-se, mas uma mulher é difícil entender pelos motivos que agora passo para o leitor.
Roberto Carlos compôs e gravou ,em 1972, “Você é linda”, a mais bela homenagem que uma gestante já recebeu: “Você veio sorrindo não sei bem de onde/ Um jeito tão puro de quem no futuro espera/ O sorriso de alguém// Seu vestido sem curvas seu sonho guardando/ Eu fico pensando no dia que o sonho vier/ Sua vida enfeitar// Não sei quem você é nem de onde você vem/ Só sei que você é tão linda esperando neném/ Esperando neném”
Neste mesmo disco ele homenageia as negras na música “Negra”: “Ela é quente, quente, quente, como um dia de verão/ Como o sol que eu peço tanto/ Que me faça igual a ela/ Pra que eu viva junto dela/ Pra que eu tenha a mesma cor// Ah! Quem dera eu esquecer/ Da minha cor tão branca/ E me perder, nessa ilusão tão pura/ Nessa ilusão tão meiga, nessa ilusão tão negra”
Na década de 70 presenteou a cantora Gal Costa com o clássico “Meu nome é Gal”.
Em 1992 valorizou as baixinhas na canção “Mulher pequena”. No ano seguinte homenageou as gordinhas na música “Coisa bonita”: “Coisa bonita, coisa gostosa, quem foi que disse que tem/ Que ser magra pra ser formosa?”
Em 1995 foi a vez das usuárias de óculos. Em 1996 depois de muitos anos que o cantor Miltinho tinha gravado uma música para as mulheres de 30 anos, Roberto Carlos fez uma para as de 40: “Não quero saber/ Da sua vida, sua história/ Nem do seu passado/ Mulher de 40/ Eu só quero ser/ O seu namorado”.
Anteriormente o Rei já tinha homenageado as tias, as prostitutas, as psicanalistas, as meninas, as primeiras-damas, amantes, ciganas, mães, madrastas, amigas, cheirosas, namoradas, símbolos sexuais, senhoras, atrizes, e – a principal delas, a mais importante de todas – Nossa Senhora.
Algumas tiveram seus nomes em suas canções: Amapola, Rosa, Consuelo, Deusa, Maria, Laura, Zuzi, Linda, Candinha, Ana, Malena, Inês, Lili, Amélia, Lígia.
É por essas e outras que entendo que as mulheres deveriam ser gratas ao Rei e concordarem com a cantora Rita Lee quando ela diz que Roberto Carlos é um Boeing em terra de Teco-Teco. [José Normando Bezerra]



PROSA
“Era uma consideração da força mitológica da figura de Roberto Carlos, de sua significação como vislumbre do inconsciente nacional”
Caetano Veloso
Verdade tropical
VERSO
“Só ando sozinho
E no meu caminho o tempo é cada vez menor”
Roberto e Erasmo
“As curvas da estrada...”

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O conduto musculomembranoso e outras notas

Publicitários antenadinhos (redundância) deste Ryo Grande já devem saber o que se anuncia aqui, em terceira, quarta mão, pois que li na internet, fonte do jornalismo local que só tem dinheiro mesmo pra pagar a conta do provedor e olhe lá. Mas isso é outro papo – o de hoje é o que segue.
Esta semana tem rebuliço na TV: a marca Lactacyd (GlaxoSmithKline) lança vídeo comercial intitulado “Protect yourself” (proteja você mesma), filmado da perspectiva de uma... vagina. Isso mesmo: v-a-g-i-n-a.
Ou seja, um filme tipo “b...”, mesmo. E o bê aqui não é de bunda, enfim.
Não se assustem. Vai passar na TV e tudo mais (verdade que a campanha será exibida somente na Holanda e na Bélgica ao longo deste ano, países de tradição, digamos assim, mais liberal quanto aos costumes).
O Lactacyd – pesco do sítio do fabricante – é “uma emulsão suave recomendada para a higiene íntima a partir da puberdade”. Mas bom mesmo é a defesa publicitária de quem elaborou a peça: “A ideia é mostrar os perigos a que a vagina está submetida diariamente e que o Lactacyd ajudaria a prevenir.”
Já quanto aos muitos perigos que oferece o “conduto musculomembranoso” (definição do Houaiss), não existe remédio.
O que me faz lembrar da maravilhosa antologia “Uns fesceninos”, organizada por Oswaldo Lamartine ali pelos inícios dos 70. O livro foi recentemente reeditado pela Capitania das Artes, ainda no tempo de Dácio Galvão. Lá pela página 37 o leitor encontra o “Bicho venenoso”, que começa assim: “Tatu mora no buraco./ Guaxinim, beira de praia,/ Bicho que mata homem/ Mora debaixo de saia.”
E segue, pícaro, moleque.
Quem me contou a história foi Vicente Serejo: os versos eram de um militar que, pateticamente, solicitou ao antologista que tirasse seu nome do livro, que não ficaria bem à sua condição de homem de armas etc. Lamartine não contou conversar: pegou grande parte da edição, ainda em suas mãos, e com um estilete tirou fora a página com o nome do covarde, riscando o nome também da “Tábua”, que era como chamou o índice dos fesceninos.
*
TRADIÇÃO
Não é qualquer uma que pode se candidatar à Rainha do Carnaval de Natal: entre outras obrigações burocráticas, aquelas de não ser casada e de “não ter nenhum compromisso que venha a comprometer o seu reinado”.
Já o Rei Momo não pode pesar menos de 100 quilos.
SHOPPING
No Orla Sul, hoje, tem o Toca Trio às 18h e André Leli às 19h. Chegue um pouquinho antes e confira as mulheres-borboletas da exposição de Dona Miriam de Sousa e a natureza das irmãs Rocha, Miriam e Lúcia.
FOLKLORE
Depois de lançar “O saci de duas pernas” nesta Capital, Djair Galvão Freire lança o livro hoje, 19h, na Agência de Desenvolvimento Sustentável do Seridó – ADESE – em Caicó City.
Como não poderia deixar de ser, o livro está sendo um sucesso nas ribeyras do Putigy (também, com tanta caipora, curupira, cuca, lobisomem e mula-sem-cabeça, só faltava mesmo um saci com duas pernas – e dizem que os há com mais de duas).
BIMBALHAM...
Festa no Bardallos. Aniversário. Quatro aninhos. Amanhã. Tem exposição coletiva em homenagem a Diniz Grilo com artistas de várias décadas: Nazário (década de 60), Arruda Sales e Gilson Nascimento (70), Carlos Sérgio Borges, Fernando Gurgel e Marcelus Bob (80), Fábio Eduardo, Fernando Galvão, Franklin Serrão e Valderedo (90).
... OS SINOS
Na hora da Ave Maria tem show coletivo com os convidados Donizeti Lima, Edja Alves, Geraldinho Carvalho, Iggor Dantas, Isaque Galvão, Rodolfo Amaral e Romildo Soares.
Às 20h30 sobe no palco a Balalaika Brega Band, e, às 22h, o black Neguedmundo.
Não deixe para amanhã (R$ 10) a senhas antecipadas que você pode comprar hoje (R$ 5).
O Bardallos fica na Rua Gonçalves Ledo, 678, Centro Histórico e Histérico desta Capital Verde.
MUÍDOS
Amanhã tem Forró do Muído e Banda Eva. No Circo da Folia, Pirangi do Norte, a partir das oito da noite (com ampla movimentação de cambistas e compradores parando seus automóveis em fila dupla, tripla, quádrupla etc – pra Polícia e o Detran não dizerem que não sabiam).
MATUTAGEM
Amanhã, no Forró do Pote, 21h, o matuto Jessier Quirino volta a atacar com seus causos num recital de mais de hora de risadas.
O bom é que a abertura fica por conta de Zé Hilton e Jubileu. Pra reservar uma mesa e quatro tamboretes: 3081.3163.
APPLE
Já neste domingo, 18, 17h, a Companhia Manacá de Teatro abre a temporada Zero-Nove de teatro infantil no Alberto Maranhão, Ribeyras do Putigy. O espetáculo da vez é “Branca de Neve e os sete anões”, que todo mundo sabe ser a história da mocinha, lindinha, fofinha, branquinha, com uma madrasta ruim feito o Cão que decide matá-la, primeiro contratando um capanga, depois com uma maçã envenenada.



PROSA
“No folhear da história universal das letras, esbarramos em passagens eróticas escritas nas suas mais diferentes idades pelos mais diferentes povos.”
Oswaldo Lamartine
Uns fesceninos
VERSO
“um pássaro palpita
em minha mão”
Diva Cunha
“um pássaro...”

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Maior do mundo

Leio nas folhas, virtuais e de papel, que o Cajueiro de Pirangi é a saúva do trânsito deste Ryo Grande, bandas do litoral sul. Tipo: ou Pirangi acaba com o cajueiro ou o cajueiro acaba com Pirangi. Ou, como o pedreiro da canção: mesmo sem morrer, ele está lá, na contramão, atrapalhando o tráfego.
Aliás, vivo, muito vivo, não pára de crescer.
Aliás, “pára”, verbo, tem agudo? Pois, é isso: se até a reforma ortográfica pôde (mais um!) podar acentos tradicionais, por que cargas d’água não se pode (sem acento) passar a tesoura na cabeleira cajuína?
Ninguém responde, ninguém se responsabiliza.
Noves fora a querela – corta, não corta – o problema do trânsito passa, sim, pelo cajueirão, mas não apenas: em quase todo o trecho da famosa Rota do Sol dentro dos limites urbanos da igualmente famosa praia os problemas são muitos. A começar pelos bares e negócios que tradicionalmente se instalam às margens das estradas e rodovias sem a mínima preocupação de oferecer estacionamento à clientela.
Voltando para Natal, depois de enfrentar os galhos protegidos pelos gelos baianos, os motoristas continuam sendo testados nos limites da paciência em outros pontos: na altura da praça; nas imediações do Beleza – hoje Shok, ou Shock Bar –; próximo ao Pitanga; em frente ao Paçoca de Pilão; e, já perto da saída da praia, em frente ao Comeu, Morreu.
Ora, ora, não é preciso dois dedos de inteligência para saber que, um: Pirangi é a praia mais densamente povoada durante o veraneio, e os próprios veranistas, hoje, preferem sair de carro. Dois: pelo trecho passam todos aqueles que vêm de dezenas de praias, a começar por aqueles que vêm da Pipa pela beira-mar. Três: pela proximidade da Capital, muita gente também vem de lá, ou seja, automóveis do sul e do norte. Quatro: é inevitável que o ponto máximo de concentração sobre quatro rodas aconteça ali.
Pra piorar, a própria prefeitura estimula o uso indevido da Rota do Sol – o carnaval acontece literalmente ali. E, do outro lado, sentido norte-sul, o Circo da Folia arma sua tenda logo na entrada da praia e a administração sempre fez vista grossa aos milhares de ambulantes com suas cadeiras e mesas de plástico e seus carrinhos de lanches e bebidas. É incrível, mas esses bares improvisados são montados em cima do asfalto. Eu escrevi, “em cima do asfalto” – não existe nem acostamento ali.
É óbvio, muito óbvio que uma estrada que passe por fora de Pirangi se faz mais que necessário. E que o poder público cuide para que suas margens se mantenham livres desses nós. Quem quiser abrir seu negócio que bem aproveite a demanda, mas que se responsabilize pelo estacionamento regular da própria clientela.
Se não, corremos o risco de ter não apenas o maior cajueiro do mundo, mas o maior engarrafamento também.
*
FUN’
Saiu ontem, Diário Oficial, a lista de cargos comissionados para a Fundação Cultural Capitania das Artes – anotem:
Josenilton Tavares, para a chefia do departamento de atividades culturais; Jane Heyre, para a Usaf; Castelo Casado, para o departamento de execução de projetos e eventos e atividades especiais; Scilla Gabel da Silva, para a Lei Djalma Maranhão; Dionísio Outeda, Comunicação Social; José Áglio Melo, setor de informatização; Camilla Cascudo Barreto, assessoria jurídica; Cristina Maria Moura de Medeiros, chefe do Centro Cultural Jesiel Figueiredo; Francimário Vito dos Santos, chefe do Departamento de Patrimônio Cultural dos Bens Moveis e Imóveis.
Pausa pra tomar fôlego:
Ilana Felix de Oliveira, assessoria técnica; Marcos da Silva Martins, chefe do Núcleo de Artes Cênicas; Leonardo Dias Oliveira, para a diretoria do Memorial Natal; Lenilton Teixeira, para a Escola de Teatro; Henrique José Sousa, chefe do Núcleo de Qualificação; Odinelha Silva Targino Bezerra, como diretora do Centro de Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão; Sânzia Pinheiro Barbosa, chefe do Núcleo de Artes Plásticas; Anisia Maria Marques, Núcleo de Dança; Cláudia Magalhães de Oliveira, Biblioteca Esmeraldo Siqueira.
Parece gente demais, mas, são apenas 18, e, vistos assim, no conjunto, um bom time.
‘C’
Muitos nomes vêm da gestão anterior, não necessariamente nas mesmas funções – entre eles, Josenilton Tavares, Dionísio Outeda, Ilana Felix, Lenilton Teixeira, Sânzia Pinheiro e Anisia Marques.
‘ART’
De um observador cultural (não comissionado), sobre a Biblioteca Esmeraldo Siqueira (antes ocupada por Galvão Filho): “Tudo a ver – saiu um músico pra entrar uma dramaturga na coordenação de uma biblioteca...”
‘E
Mas resta uma perguntinha: Castelo Casado, ao ocupar a nova função, não estaria se impossibilitando (olha o gerúndio aê) para prestar serviços à Funcarte?
Profissional e figura humana dos melhores, Casado não merece entrar em nada questionável.
BULÍCIO
Seguindo a linha dos colunistas da Capital, a pergunta: Quem foi visto entrando na sala de Cesar Revorêdo semana que passou?
Contrariando a regra de não dar uma resposta, pois: Um bocado de gente, claro. Mas entre os muitos, Carlos de Souza.



PROSA
“E é justamente na sensação de vias-de-fato do caju que está a conceitualidade marxista dele.”
Mário de Andrade
O turista aprendiz
VERSO
“Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui”
Chico Buarque
“Deus lhe pague”

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Minha vida em quadrinhos

Fui inventar de falar sobre o jornalismo em quadrinhos de Joe Sacco (“Palestina: uma nação ocupada” e “Palestina: na faixa de Gaza”), ant’ontem, e me lembrei que de quadrinhos tenho muito mais a falar.
Cresci num mundo cheio de personagens de Walt Disney – poderia até dizer que minha infância se passou em Patópolis. Deve ser por isso que nunca levei a sério o livro de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, “Para ler o Pato Donald”. Aliás, nem terminei de ler.
Foram anos e anos em que, quase literalmente, devorava quadrinhos, em especial os de Disney – as edições especiais, “Os caçadores”, “Os cineastas” etc, por exemplo, eram especialmente apreciadas: traziam uma série de histórias voltadas ao tema que as intitulava e eu chegava ao cúmulo de ler cada mínimo detalhe, incluindo aí a lombada. Era um troço meio esquizofrênico, reconheço.
Depois, salvo engano pela primeira vez pela L&PM de Porto Alegre, conheci Hugo Pratt e Guido Crepax. Lá se vão umas três décadas e os dois italianos continuam fazendo parte da minha tríade preferida no setor (o outro é o também italiano Milo Manara). Pra contrabalançar a centena de personagens femininas de Crepax e Manara (com Valentina e Miele – uau, uau – na cabeça), o viajante Corto Maltese, alguém sem emprego fixo, sem lar definido, viajando pelo mundo.
Ainda hoje me arrependo não ter ido a uma exposição de desenhos de Hugo Pratt numa galeria romana: fiquei com medo de vender o pouco que tinha para comprar um original, ou, pior, de cometer qualquer loucura tipo roubar um quadro da parede. Pratt faleceu pouco depois.
Mas, bem antes (e bem antes do livro de Dorfman), quando do meu primeiro emprego assalariado como estagiário concursado no hospital de Severino Lopes, minha primeira paga teve destino nobre: uma série de serigrafias numeradas e assinadas pelo autor, ninguém menos que Albert Breccia. Era uma releitura visual em quadrinhos para “O coração denunciador”, de Edgar Alan Poe. Não sei como, o mimo apareceu numa livraria ali pela Deodoro, e eu não hesitei em pagar o equivalente a um salário mínimo, ou até mais, pra levar as pranchas pra casa. Ainda estão comigo, esperando o dia em que eu tenha uma sala gigantesca para pendurá-las numa parede enorme.
Dos perdidos, não sei onde foi parar minha edição espanhola, capa dura, lux de luxo, para a versão de Crepax para “Historia de O”. Tampouco sei como minha coleção de “Tex” – e posteriormente “Ken Parker” – foi sumindo, sumindo, paulatinamente sumindo, até não restar nada. Crescer e mudar de residência implica nestas perdas, reais e simbólicas.
Mas ainda tenho quase tudo que comprei na segunda metade da década de 80, um período editorial bastante fértil neste Brasil brasileiro. É da época as primeiras edições de “V de vingança”, de “Elektra assassina”, de “Orquídea Negra”, de “Sandman”, de “Asilo Arkham” (e de muitas versões para Batman, o homem-morcego, o personagem, talvez, mais quadrinizado desde sempre).
No início dos 90, impossível não citar os “Classic Illustrated” da editora Abril – que abriam com “Moby Dick” adaptado por Bill Sienkiewicz.
E as “Grandes Aventuras”, publicadas pela revista Animal? E a série “Graphic Novel” publicada pela Abril? Não eram edições luxuosas, mas tampouco faziam feio graficamente e custavam bem menos que as atuais da Conrad, Devir etc. Mas o leitor brasileiro podia ler pela primeira vez e conhecer personagens alternativos como “Ranxerox” e “Necron”, e autores idem como Miguelanxo Prado e Jaime Martin.
Recentemente (recentemente para mim são os últimos dez anos) tive dinheiro suficiente pra comprar muitas edições de “Sandman” (80 paus em média) – edições bem cuidadas, capa dura etc. Mas as que eu gosto mesmo, como bagagem sentimental, e por que não dizer literária, são essas citadas, retratos de uma época, retratos de várias épocas, com preços esdrúxulos para os dias de hoje (em cruzados novos, em cruzeiros, em muitos ou poucos zeros). Impagáveis, enfim.
*
CLARA CROCODILO
Arrigo Barnabé anda fazendo uns shows em Sampa, releituras do seu clássico “Clara Crocodilo” – que, vinte anos depois, continua sempre atual.
Já Rogério Flausino e a turma indigesta do Jota Quest resolveram profanar – logo quem? – Serge Gainsbourg. Valei-me deus.
MATERIAL ESCOLAR
Não, não é merchandaizín, mas até agora os únicos descontos – dignos – para a compra do fatídico material escolar que o sobrescrito viu são os da Casa Sarmento: 30% à vista e 20% no cartão de crédito. (Isso, num “feirão” realizado fim-de-semana passado – resta saber se continuam e conferir os preços.)
PROVÍNCIA
Dia desses, Mônica Bergamo, na Folha, noticiou a abertura de um novo restaurante do chef Alex Atala. Onde? Nos Jardins, claro. Detalhe? Mais de 300 marcas de cachaça.
Enquanto isso na Capital Espacial do Brazil.
H 2 O
É hoje, Midway, 19h, que João Bosco Sousa lança “Um gole d’água para refrescar a memória”.



PROSA
“Habitamos uma enorme revista Disneylândia, devemos aceitar com otimismo esta fantasia, e não nos envenenaremos com a retórica de que é urgente voltar à realidade.”
Dorfman e Mattelart
Para ler o Pato Donald
VERSO
“Ardemos todos: ninguém escapa.
Viver é queimar-se.”
Vozniessiênski
“Incêndio na...”

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Doido, doido, muito doido

Queria ser doido. Juro. Doido, doido. Não doido de rasgar dinheiro, que doido assim não queria ser. Mas doido de tirar a roupa na rua. E gritar no meio da rua. Ou da janela aberta pro meio da rua, ou na varanda. Doido, doido. Tão doido assim, quero ser, por quê?
Ora, piúlas! Porque essa turma do carro-aberto-com-o-som-ligado deixa qualquer um maluco. O troço não é bem forró. É uma mistura de forró com funk – carioca, claro. O funk. Pois. É um martelo no quengo de qualquer cidadão com um mínimo de senso – bom senso, claro. Essas músicas [sic] repetem sempre uma ladainha à guisa de refrão – tem uma que diz: “requebra, requebra, requebra, requebra, requebra, requebra...” E por aí vai, ad infinitum, ad nauseam. Variação, noutra: “cachaça, cachaça, cachaça, cachaça, cachaça, cachaça, cachaça, cachaça...”
Doido. Muito doido.
Então. Queria ser doido pra, diante duma vizinhança assim – som ligado além de alturas inimagináveis (eu, a meio quilômetro de distância) – sair à rua e me postar em qualquer lugar bem visível a eles (estão sempre em turma) e começar a gritar e a berrar e a dizer sandices. Quem sabe até tirar a roupa. Me exibir nu em pêlo (a reforma tirou o circunflexo de pêlo? Sei não, deixa ele aí). Causar escândalo, incomodá-los, enfim, como eles estão me incomodando.
Mas sabem o que me incomoda mais? É que a música [sic] que eles ouvem – e nos obrigam, a quilômetros, a ouvir – em tese é música para dançar. Mas ninguém dança! Estão lá como dois de paus, aboletados em tamboretes ou cadeiras brancas de plástico, enchendo os cornos de álcool. Um bando de machos, reparem bem: quase sempre não tem moça, donzela, tampouco rapariga no meio da roda. Um bando de machos a exibir músculos, a entornar litros de cerveja, a simular conversa impossível por que, se não se ouve nada a quilômetros de distância, como se haverá de ouvir qualquer coisa no meio do furacão sonoro?
Pois. Doido, muito doido, eu tiraria a roupa, faria gestos imorais, gritaria a plenos pulmões, faria um escarcéu tão grande que eles, ou se recolheriam, ou chamariam a polícia. Daí, doido que já estou, chamem até o papa, o bispo, aquele delegado, como é mesmo o nome? – Maurílio Pinto –, enfim, chamem qualquer um que eu não tô nem aí. Tô doido mesmo. Aliás, como todos com essa música de.
*
KAFFIYEAH
Hoje, 18h, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil deste Ryo Grande, o professor Hanna Safieh profere palestra sobre a questão palestina.
Safieh sabe o que diz: é palestino e, na prática, cidadão desta Cidade dos Reis Magos.
SIN CITY
Aos concluintes de Arquitetura e Urbanismo da UnP que colam grau hoje à noite no Boulevard Recepções: lembrem-se que além de arquitetura o curso é também de urbanismo – façam, pois, a sua parte para uma cidade menos indecente.
Não vou nem recomendar nada aos concluintes de Direito (depois de amanhã, mesmo local).
PESCARIA
A Fundação Zé Augusto dá não apenas o peixe, mas ensina a pescar: promove amanhã uma oficina de elaboração de projetos para concorrer ao prêmio Núbia Lafayete.
Para relembrar, são 46 projetos e uma ruma de dinheiro – divididos assim: dez projetos recebem, cada um, R$ 4 mil; vinte projetos recebem, cada um, R$ 3,5 mil; e 16 projetos recebem, cada um, R$ 2,5 mil.
A oficina vai capacitar e orientar músicos, produtores e quem mais tiver interesse em gravar um CD. Começa às 9h, de amanhã, quarta-feira, no Teatro de Cultura Popular, Rua Jundiaí, 641.
LETRA & MÚSICA
Fernando Fernandes, secretário de Turismo Estadual, garante a Pipa Literária – feira, festa, encontro etc – para o primeiro semestre do ano. E aponta três possíveis shows: Fernanda Takai, Luiz Melodia e Roberta Sá.
Bom, bom.
Garante também a participação – musical e literária – dos nativos deste estado.
Legal.
SIR CHARLES
Dando pitaco, eu insistiria num convite ao editor Charles Cosac, da Cosac Naify. Pra falar sobre a sua editora, um “case” em se tratando de livros de elaborada apresentação visual no mercadinho brazuca.
Convite provavelmente a ser recusado pelo tipo, famoso pelo exotismo. Mas, quem sabe.
CALÇA DESBOTADA
Charlando com Ailton Medeiros semana passada lá vem o assunto reforma ortográfica: o polemista está disposto a contratar um professor particular apenas o assunto se consolide, solidifique, enfim. Eu aproveito pra avisar aos leitores: a coluna vai passar muito tempo ainda escrevendo à moda antiga.
Só não prometo mandar flores, nem o velho terno. Já a calça desbotada...
PRATO FINO
Morreu semana passada Dona Edith do Prato: natural de Santo Amaro, Bahia, participou do clássico – e experimental – “Araçá azul”, de Caetano Veloso.
Soube que a Biscoito Fino relançou há alguns anos seu único disco, “Dona Edith do Prato e Vozes da Purificação”. Vamos à cata.
GLOBAL
A Discomania (galeria entre a Vigário Bartolomeu e o Beco da Lama) tem um LP (assim, meio mal conservado) da cantora Maysa, quando ainda assinava Maysa Matarazzo.



PROSA
“O amor comove e a violência seduz.”
Tony Monti
eXato acidente
VERSO
“Muita Loucura faz Sentido –
A um Olho esclarecido”
Emily Dickinson
“Muita Loucura...”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Palestina em quadrinhos

Até um dia desses a conta chegava aos 650. Seiscentos e cinqüenta o quê? 650 palestinos mortos. Continua apenas um número, verdade? 650. Palestinos. Mortos – não se sabe quantas mulheres, quantas crianças, quantos homens. Aliás, a morte de mulheres e crianças não é mais terrível do que a morte de homens, acho. Para saber mais sobre o assunto procurem nas livrarias duas obras fundamentais do jornalista Joe Sacco – “Palestina: uma nação ocupada” e “Palestina: na faixa de Gaza”. Foram publicados, no Brasil, pela Conrad, em 2000 e 2003, mas qualquer livraria de vergonha deve(ria) tê-los em estoque. Não se admirem que pareçam histórias em quadrinhos. São. Exatamente isso. Histórias reais dos “perdedores da história”, para usar um termo empregado por Edward Said no prefácio do segundo: “banidos às margens ou vagando em desalento, sem muita esperança ou organização – a não ser por pura rebeldia, pela força de seguir em frente, quase sempre ignorada, e pela disposição para se agarrar à sua história, contá-la repetidamente, e resistir a planos de expulsá-los de uma vez.”
Alguém dirá que é apenas um lado da notícia. Que seja. É um lado, pois, que nos interessa, esse, dos “perdedores da história”.
O ponto de vista de Sacco não se detém nos grandes protagonistas, mas nas pequenas histórias cotidianas, de anônimos, nas feridas dos moradores dos campos de refugiados, balas de borracha, balas reais, marcas de uma guerra diária. Os feridos as exibem às vezes com revolta, às vezes com orgulho, quase sempre com ambos os sentimentos ao mesmo tempo. (“Você ouviu o Mohammed dizer que nunca foi preso?”, pergunta um entrevistado ao jornalista – “Ele tem vergonha disso”, conclui.)
Tão acostumados – e anestesiados – estamos com as imagens na TV, de morte, bombardeios, escombros, explosões, separados pelo tubo catódico, pelo plasma ou LCD dos dias de hoje, que ler os quadrinhos jornalísticos de Joe Sacco termina nos aproximando da verdade. Aquelas pessoas, desenhadas em traços beirando o grotesco, distantes da estética dos walt disneys e maurícios de souza da vida, são reais, o terror em que vivem é real.
E Sacco despe-se de vez da suposta objetividade do jornalista: desenha a si mesmo em meio à ação, como parte integrante e inseparável do que quer noticiar, segundo o lado que optou retratar (o lado dos “perdedores da história”, lembram-se?). Mais: despe-se do papel de herói, que muitos correspondentes de guerra preferem assumir, e mostra-se inquieto, com dúvidas, inseguro, com medo, às vezes com o ego inflado pelos futuros elogios que sua reportagem em quadrinhos almeja alcançar – durante um confronto entre soldados e manifestantes em Ramallah, Sacco se desenha fugindo da briga, auto-irônico: “Não quero chegar perto demais... Prometi para mamãe que tomaria cuidado... Além disso, estou tremendo pra caramba... Decido dar a volta no quarteirão, aproximar-me pelo outro lado... É bom para o gibi. É bom para o gibi. É bom para o gibi.”
Os gibis saíram ótimos.
*
NÚMEROS
Relendo os dois gibis de Joe Sacco, pesco alguns números:
No primeiro ano da intifada, 1987-1988, 400 palestinos foram mortos, vinte mil feridos.
Nos primeiros quatro anos da intifada, os israelenses cortaram 120 mil oliveiras de palestinos (Sacco desenha o rosto enrugado de um palestino, alguns dentes faltam na boca aberta – o velho foi obrigado pelos soldados a cortar suas próprias árvores: “Eu estava chorando... senti como se estivesse matando um filho...”).
Nos primeiros quatro anos da intifada, os israelenses demoliram 1.250 casas palestinas.
Nos primeiros quatro anos da intifada, os colonos israelenses mataram 42 palestinos – apenas três julgamentos foram concluídos, a maior sentença foi de três anos. “Por outro lado”, conta Sacco, os palestinos mataram 17 colonos – nove palestinos foram a julgamento, seis deles condenados a prisão perpétua.
FÓRUM
Os alunos da UFRN que desejem participar do Fórum Social Mundial – este ano em Belém do Pará – podem procurar o Comitê Universitário “Chico Mendes” ou Bruna Massud (8873.1656). A turma parte próximo dia 24 e retorna no segundo dia de fevereiro. O custo? Duzentos paus.
INÚTIL
“Pequeno ritual das coisas inúteis”, de Theo G. Alves, é o próximo lançamento da Flor do Sal. Para janeiro, mais tardar fevereiro.
LOCAU
Hoje tem “Sarau Locau! – Recital de Verão” em Pium, litoral sul deste Ryo Grande. A partir das 19h, no ZenBar Café, Rota do Sol (em frente ao ginásio de esportes). Grátis.
CARNAVALHA
Gutenberg Costa email-a-me para contar que o “Antigos Carnavais” entra em seu oitavo ano, próximo 6 de fevereiro, a partir das 17h: o frevo parte da velha Catedral, Centro Histórico, e desce a ladeira, onde rola o Baile da Saudade, na Ribeyra Velha de Guerra.
“A nossa banda com 60 músicos é comandada pelo maestro Rezende e só toca frevo”, alerta o folclorista – que lembra, sem choro nem vela, que continua sem patrocínio algum para um livro que escreveu sobre a história do carnaval natalense, derna 1877 até os dias de hoje. Para ter uma idéia da iconografia, Costa tem mais de 500 fotos antigas do nosso carnaval.
Alguém aí se habilita a patrocinar a obra?



PROSA
“Os habitantes vêem as estrelas do meio-dia às vezes nas fronteiras de suas pátrias.”
Mourid Barghouti
Eu vi Ramallah
VERSO
“Foi aí que me dei conta
da tamanha inimizade comigo mesmo”
Márcio de Lima Dantas
“Comigo me desavim”

sábado, 10 de janeiro de 2009

Adivinhe quem vem para o café-da-manhã: Márcia Pinheiro

Não é a primeira vez que Márcia Pinheiro aparece por aqui, notará o leitor mais atento. Nem tampouco esta segunda vez será a última, acrescenta o sobrescrito. Mínimo porque, como leitor, gosto do que Márcia escreve (ela agora tem um novo blog, além do antigo “Se me perguntarem”: http://parecequefoiassim.blogspot.com).
Aliás, melhor deixar que ela mesma se apresente, como faz em seu blog: “Márcia, natalense por descuido ou destino, com um pé em Japecanga, outro em Pium e a cabeça no mundo. Ex-blogueira no www.semeperguntarem.blogspot.com, atual blogueira aqui. Acreditando em e desacreditando de astros, bruxas e afins, sol em virgem, ascendente áries, lua-escorpião. Sobre lua em escorpião já foi dito: ‘a mais temida Lua faz com que a pessoa lide, desde sempre, com o lado negro da vida. Como também com a magia e com a sexualidade intensa. Lua de feiticeiro, porque o feiticeiro é aquele capaz de transformar merda em ouro. Lua-Escorpião mete medo em quem tem medo da paixão, quem tem medo da intensidade das emoções que correm por baixo do pano da consciência clara e cristalina, repleta do que sim e do que não. Lua-Escorpião traz fortes emoções, que permanecem escondidas, e ensina: 1. a saber guardar segredo; 2. a superar-se; 3. que o inimigo é o próprio escorpião"(João Acuio). Pode ser. Ou não.”


A COBRA, O ANO NOVO, A DOR E A CURA
Então não conseguia mais andar. A planta do pé tocando o solo irradiava dos dedos à base da coluna vertebral o choque, depois dor, depois enrijecimento, depois espasmo, depois dor, depois choque. Nem padiola, maca, raio x, injeção, nem maravilha curativa, remédio que quando não cura mata, quando não cura a doença mata o sujeito, nem o homem da mala anunciando catuaba composta, erva milagrosa, nem cobra nem jacaré. Minto. Cobra sim, que foi ela a responsável pelo que sucedeu, por tudo, aliás, desde o início dos tempos – rezam as Escrituras.
Era uma beleza, o lugar: beira-mar, beira-rio. Chegando apressada, pacotes de supermercado, carregando, sacos de gelo, pesando, e sssss, lá vinha, ligeira, serpenteando, na porta de entrada - em sua função, claro, serpente que era, de nascença.
Nem se pára, hora dessas, pra ver se é peçonhento ou não o bicho – cabeça triangular ou arredondada, escamas brilhantes e tal –, e assim, reativa, sapecou-lhe em cima o saco mais pesado, o de gelo, imobilizando-a, e no movimento brusco, paralisou-se também, nervo ciático pinçado, talvez, disseram. Dor. À mão chegaram um rodo e uma rede, dessas de limpar piscina, e não soube o que fazer nem com um nem com a outra. Acudiram, então, acorreram, matando o infeliz pequeno réptil a golpes de rodo. O pobre. Uma pena.
Passos lentos, subindo escadas até o quarto, até a varanda, de onde ondas batendo, de onde milhares de estrelas no céu e primeiros fogos de artifício anunciando o ano que nasceria dentro de quatro horas.
Velho vestido branco, tentou driblar a dor e concentrar novas esperanças, desejos, sonhos, resoluções. Vieram os drinques, vodka/suco de laranja, vinho, espumante e cada passo era um martírio.
Romaria até a fogueira, gente, festa, abraços, ano novo, ano velho, luzes dos fogos, risos, mais abraços, ondas lambendo os pés. E fim. Era já outro ano.
Vieram os analgésicos, antiinflamatórios, comprimidos, sublinguais, corticóides... E viria outro dia, que foi pior, e mais um, pior ainda, e no terceiro, finalmente, algum alívio, e o quarto dia, enfim, com a hora de pegar a estrada e voltar para casa, procurar um especialista, tentar a cura para a dor, já melhorada, ainda incômoda, ainda limitante.
O amigo sentenciou: isso aí na coluna é do seu medo de seguir em frente.
Com ou sem medo, seguiria - decisão de ano novo - afastando do caminho o que rasteja, sem que necessário seja sua aniquilação. Que no ano da Força, da abundância, da colheita, mesmo sem saber direito onde se vai chegar, é imperativo prosseguir.
Com ou sem dor, de pé. [Márcia Pinheiro]“maré cheia
a doença traz a dor e a cura
e semeia
grãos de resplendor
na loucura”
(“Pérolas aos poucos”, Zé Miguel Wisnik e Paulo Neves)



PROSA
“Alguém dizia que a Providência era o nome de batismo do acaso; algum devoto dirá que o acaso é um apelido da Providência.”
Chamfort
Máximas e pensamentos
VERSO
“O que de bom vem,
o que de ruim vai.”
Lisbeth Lima
“A conta gotas”

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Notas de veraneio

GAZA
Quem quiser protestar contra o horror que acontece, há décadas, mas especialmente nos últimos dias, na Palestina, pode se juntar àqueles que promovem um Ato Público de Solidariedade ao Povo Palestino. Hoje, 16h, no calçadão da João Pessoa.
PANORAMA
Em se falando de Artes Plásticas (hoje Artes Visuais), começou ant’ontem a mostra “Prêmio Thomé Filgueira – Panorama das Artes Visuais”, que selecionou um mundo de gente: Agueda Ferreira, Alexandre Gurgel, Alexandrina Coelho, Cláudio Damasceno, Clayton Marinho, Conceição Oliveira, Diego Medeiros, Flávio Freitas, Genildo Mateus, Gilson Nascimento, Hanna Lauria, Ilkes Rosemir, Ivo Maia, Jean Sartief, Joca Soares, Jota Medeiros, Kelton Wanderley, Laércio Eugênio, Leandro Garcia, Luiz Elson, Marinho, Mário Sérgio, Max Pereira, Nayara Costa, Newton Avelino, Ricardo Cerqueira, Sofia Porto, Vicente Vitoriano, Vinícios Dantas e Wendel Gabriel.
PANORAMA II
Ou seja, 30 artistas, selecionados pela comissão julgadora (Afonso Martins, Célia Albuquerque e Fernando Gurgel), que vão dividir um total de R$ 50 mil.
Onde? Na Fundação Zé Augusto, Rua Jundiaí, quase esquina com a Afonso Pena.
VARAL
E, no Bardallos, amanhã, a partir das 13h, a Aphoto reúne associados e interessados para comemorar o Dia Nacional da Fotografia.
Que foi ontem, mas, enfim, como amanhã é sábado... rola uma “feijoada fotográfica” – com direito ao tradicional “Varal”: quem quiser leva uma foto 20x30 cm e pendura – a foto, bem entendido. Mais informações pelo número 8896.5436.
FACHADA
Em se falando de fotografia, saiu o resultado do concurso do Shopping Cidade Jardim: Ângelo Maciel levou o primeiro lugar e um prêmio de R$ 2 mil. Na seqüência, Débora Souza (R$ 1 mil), Thiago Palitot (R$ 500), Santiago Hernandez, Ricardo Seabra e Henrique José Concentino (R$ 300 cada).
As fotos já estão expostas na fachada do shopping.
CÃES & GATOS
Atenção, papais e mamães: “Bolt, o supercão”, em exibição nas duas únicas cadeias de pipocas da City, não é de todo intragável. Aliás.
A gatinha vira-latas, coitada, tem uma cena impagável, onde explica num gesto o porquê da existência de mais gatos de rua do que os tradicionais inimigos caninos.
CULT
Enquanto isso estreou ontem, no Moviecom, “Lanchonete Olympia”, que o release informa ser um filme “indie”, ou seja, daqueles independentes made in America. O diretor, Steve Barron dirigiu clipes para gente como David Bowie, Michael Jackson e o Culture Club – pra citar alguns “exóticos” ou pretensamente.
Já o Cinemark ataca de “cult” com o argentino “La Leonera” (com o brazuca Rodrigo Santoro no elenco).
SUMÉ
“Nas paredes da pedra encantada”, apesar de ter o lançamento previsto para meados deste ano, já pode ser visto no YouTube.
Calma, calma: ainda não é o do documentário, de Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim, sobre o famosíssimo álbum “Paêbirú”, de Lula Côrtes e José Ramalho – por enquanto é apenas o trailer.
COCADA BOA
Gente esquisita mesmo rola lá pelo Praia Shopping – uma mistura de gringos tradicionais com uns tipos suspeitos. Coisas deste entreposto turístico.
Pois, muito a calhar o show de hoje à noite: Arleno Farias no espetáculo “Coca-Cola com Cocada” – 20h30.
EXPORTAÇÃO
Se o Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil (CCBNB) não vem a este Ryo Grande, este Ryo Grande – como não – vai ao CCBNB (dos vizinhos Ceará e Paraíba): a Camarones Orquestra Guitarrística se apresenta no III Festival BNB do Rock Cordel; o violonista Alexandre Atmarama e o trombonista Gilberto Cabral se apresentam no IV Festival BNB da Música Instrumental, e o cantor Isaque Galvão, o baterista Di Stéffano, a banda Camba e o quarteto Café do Vento estão na programação regular do CCBNB da capital cearense.
EXPORTAÇÃO II
Além desses, a Companhia Escarcéu de Teatro de Mossoró participa do III Festival BNB de Artes Cênicas (com o espetáculo “Chico tira, Mané veste”), o grupo Carmim leva a consagrada “Pobres de Marré” aos três Centros Culturais, o Magiluth encena seu “Ato”, em Fortaleza, e a Domínio Companhia de Dança embarca para o Cariri para apresentar o “No caminho... sem pressa”.
EXPORTAÇÃO III
Por fim, mas não menos importante, o potyguar Marco Antônio França Albuquerque ministra oficina de formação artística – “Música e Corpo” – nos dois CCBNBs cearenses.
NE, BR
Tem dança, grátis, no TAM, próximo domingo, 11: é o espetáculo “O Nordeste é assim”, daCompanhia de Dança Jane Ruth, de Fortaleza. Às 18h.
TINTIM
A assessoria de imprensa da TIM – ao contrário da própria empresa assessorada – mostrou-se célere, educada, atenciosa, diante das reclamações elencadas, ontem, aqui.
Já o jornalista Luiz Gonzaga Cortez aconselha soltar o verbo à Anatel – “Aí a coisa funciona”, diz Cortez.
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
“A decoração tirou da casa a história das coisas e das pessoas. É como se o bonito pudesse ser substituído por um cardápio de estilos ou um mostruário de marcas.” – de Vicente Serejo, ontem, no vespertino JH, sobre a extinção dos quintais nesse Ryo Grande Sem Sorte.



PROSA
“A honestidade se afogou no lodo da corrupção e, como é clássico, só se salva se puxando pelos próprios cabelos.”
Millôr Fernandes
Millôr definitivo
VERSO
“Presumir o porvir não requer talento:
o torpor engravida a véspera.”
Kaváfis
“Tediário”

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ciúme é fogo

Outro dia desses o sobrescrito citou o poeta Volonté – Manoel Fernandes de Souza Júnior nos registros oficiais –, que lançou recentemente sua “Lira de viagem”, antologia de textos e autores que o Dom Manoel achou por bem reunir.
Deixou pras últimas páginas apenas dois poemas seus: gosto demais – e já falei aqui – do último, “Red”, dois versos tão somente: “A traição/ era fogo”.
Pois, agora, além de peripatético, Volonté pode se declarar profético.
Do outro lado do mundo, na terra dos cangurus, que todo mundo sabe ser a Austrália, uma mulher foi acusada de atear fogo no marido. Não no corpo inteiro, esclareça-se, mas naquilo que o homem provavelmente tinha em mais alta conta: seu pênis.
Eu disse “seu” referindo-me ao “dele”.
Pois, a esposa não achou que o negócio era exatamente assim – “Eu só queria queimar o pênis dele porque ele pertence a mim e a ninguém mais”, teria dito a mulher aos vizinhos.
“Pimenta é mulher ciumenta”, já cantava Moraes Moreira algumas décadas atrás quando carnaval se escrevia com “v” e não com “t”.
Pelos nomes dos envolvidos é de se pensar que o negócio está mais para curry do que chili peppers: Rajini Narayan, 44 anos, jogou um líquido inflamável sobre o maridão, Satish, três anos mais velho – maldade – enquanto ele dormia.
Rajini achava que Satish estava tendo um caso amoroso.
Imagine se ela tivesse certeza.
A casa do casal pegou, literalmente, fogo.
Daí que a tal Justiça achou por bem indiciar a dona do pênis alheio por incêndio, e por colocar em risco a vida não apenas do marido, mas também dos três filhos, que estavam dentro da casa.
Como o incendiado findou morrendo no hospital, semana passada, a acusação foi reformulada.
Nos anos 90 Lorena Bobbit entrou para a história por ter cortado o bilau do seu marido. O rapaz, que se chamava John Wayne, conseguiu reimplantar o seu bobbit e terminou virando ator de filmes pornôs.
Sorte que Satish, coitado, não vai ter.
*
UM MOMENTO POR FAVOR
A TIM continua tratando seus clientes como imbecis: o imbecil, pois, vai num Centro TIM, cheio de funcionários, entra numa fila, e a atendente manda o idiota para uma salinha ao lado pra falar com um funcionário, que está a milhares de quilômetros do Centro – através de um telefone fixo!
OBRIGADO POR AGUARDAR
Aí o imbecil perde – entre sair de casa, entrar na fila, ficar em pé falando num telefone ao lado de outros dois clientes irritados (tem mais uns três aguardando, pois só existem três aparelhos funcionando) – cerca de uma hora.
Depois de ouvir infinitas vezes: “Sr. Fulano? Obrigado por aguardar...”
PACOTE
Detalhe: todo o enredo por que a TIM resolveu cobrar indevidamente não um nem dois nem 25 centavos, mas mais de duzentos reais, ao não considerar um pacote promocional de minutos extra.
FILME DE TERROR
Também o Cinemark no Midway Mall vem se esforçando em tratar mal seus clientes: com as reformas, a área livre em torno às bilheterias diminuiu consideravelmente, e as filas, claro, se concentram em meio à circulação caótica de gente que sai em busca de diversão e só encontra transtornos.
VERNISSAGE
Dona Miriam (de Sousa) passou para a sua xará, Miriam (Rocha), que passou para a sua irmã, Lúcia (Rocha também) e, juntas, se não fizeram um gol, ao menos pintaram as 23 telas da coletiva “Mulher, Natureza e Flor” – que abre hoje, logo mais às sete da noite na Galeria de Artes do Espaço Orla Cultural, Shopping Orla Sul.
Vernissage – ainda se diz vernissage? – que o neo-presidente-da-Funcarte, Cesar Revorêdo, pois, não pode deixar de dar o ar de sua graça.
CAMINHADA
Como eu disse ontem (eu não, o release), tem mulher pra tudo que é gosto: mulher grávida, mulher mãe, mulher sensual, e – como não – mulher borboleta.
Ah! tem também a mulher na lua...
Hum.
E – já ia me esquecendo – “a caminhada da mulher em busca dos seus objetivos, metas e sonhos”.
Quem foi mesmo que disse que ser mãe é padecer no Paraíso?
A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA
Jairo Lima e sua Kriterion (Mercado de Petrópolis) continuam na labuta de oferecer cultura a esta Capital Espacial – além de livros e debates informais, a mesa azul do sebo recebe refeições e petiscos (escondidinho de carne de sol, lasanha, galinha a cabidela), tira-gostos (queijo de coalho assado) e sobremesas (delícia de abacaxi, “Sonho Imperial”).
EM NOME DO PAI
É hoje, sete da noite na livraria do Midway, o lançamento de “Lições que aprendi com ele e o que a vida me ensinou”, de Aluízio Alves Filho. O “ele” do título, é claro, refere-se ao pai.



PROSA
“Ela me olhava com aqueles olhos brilhantes... sabe, quando as mulheres ficam como gatas.”
Fellini
A voz da lua
VERSO
“Não dê ouvidos à maldade alheia, e creia”
Roberto e Erasmo
“Sua estupidez”

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O armário

Vou lá no velho Antônio Houaiss, sinônimo de dicionário como uma vez foi o Aurélio (Buarque de Holanda): não demoro e encontro logo o que procuro, página 290, finalzinho da primeira coluna, verbete “armário”. A seguir das definições encontra-se a expressão “sair do armário” – “informalmente”, explica o dicionarista e sua equipe, significa “assumir a própria homossexualidade”.
A origem, desconheço, nem o dicionário explica. No armário ficaria melhor escondido o famoso pé-de-lã, ou seja, o amante, classicamente heterossexual. A propósito, o Houaiss não fala em pé-de-lã – tem pé-de-chumbo e outros pés-de, mas nada do pé-de-lã, que se auto-explica enquanto termo pelo andar macio e silencioso característico dos que exercitam a traição alheia.
Voltando pro armário – não eu, mas a crônica – vou pensando cá com meus botões em quantos armários ainda persistem com suas portas fechadas por estas ribeyras do Putigy. Especialmente no terreiro da política. Ora, ora, ora, o assunto é delicado, sei – e não exatamente pelo termo associado àqueles que amam o mesmo sexo: fulano de tal é muito delicado, diz-se, quase a meia-voz. E súbito o pai fica preocupadíssimo, especialmente se o filho for varão e, invés da bola, anda com a boneca debaixo do braço.
(Já para as fêmeas acontece o contrário: invés da delicadeza, a grosseria, o andar másculo estereotipado.)
Delicado porque as almas, puras ou pias, logo apressam-se em dizer: Que é que tem a ver? Não se legisla ou se governa ou se administra com o sexo.
Isso, claro, quando a carapuça lhes serve. Quando não, é um tal de falatório sobre atributos preconceituosamente pejorativos, que não está no gibi, como antes se dizia, quando havia ainda gibis.
Pois, certo, certo, que não interessa à política (e à quase nada) as opções preferenciais e sexuais de ninguém.
Mas o fato, fato é, que andei observando um político em destaque semana que passou. Um desses de quem se fala coisas impublicáveis – ou eram dois? E logo me lembrei que durante a última campanha o marketing de um dos candidatos optou por um, digamos, ataque cruzado: em vez de se criticar abertamente a opção sexual do adversário, enfatizou-se o aspecto que, no imaginário popular, lhe emprestaria um tom de normalidade, em detrimento do outro, ausente – aquele de ter filhos.
Tenho filhos, o outro não. Posso, o outro não. Sou normal, o outro não.
Mas, os tempos mudam, e com eles mudam as pessoas. Hoje já há aqueles que não necessitam escancarar nenhuma porta e sair aos brados proclamando sua saída. Afinal, o armário existe apenas para quem, por falta de coragem própria ou temor, insiste em nele se esconder. Nenhum problema – feio mesmo é, de dentro do próprio armário falar do armário alheio.
*
TABU
Noves fora o tabu vigente, a tal opinião pública reage, vez por outra, na contramão do esperado: Dona Marta Suplicy relaxou e não gozou eleitoralmente ao questionar seu opositor: “É casado? Tem filhos?”.
(Notem como damos nomes aos bois quando o pasto é longínquo.)
TABU II
No caso de Kassab o tiro de Marta saiu pela culatra – se é que não estou sendo politicamente incorreto.
BATISMO
Bem que a neo-prefeita-eleita quis – mas o primeiro bebê potyguar de 2009 nasceu varão.
Assim sendo, não pôde receber o nome mágico: Micarla.
Hiarlisson David, o nome do boy.
BOM PARTO
Mas, para sorte da neo-prefeita-eleita, Hiarlisson não viu a luz da nova maternidade “de Carlos Eduardo”, Zona Norte desta Capital: nasceu, aos primeiros 18 minutos de 2009, na de Felipe Camarão, Zona Oeste.
MULHER
Em se falando de mulher, filhos e tal, amanhã tem mais um evento cultural na City: “Mulher, Natureza e Flor”, título da exposição da Galeria de Artes do Espaço Orla Cultural, no Shopping Orla Sul, chama ainda mais atenção pela presença de uma das três artistas – a senhora Miriam de Sousa.
Que vem a ser a mãe da neo-prefeita-eleita. E que se inspirou nas três filhas (Micarla, Rosy e Priscila) para pintar 11 telas.
NATUREZA
Pego carona no release, pra não dizer que estou mentindo ou que mal falei de flores: “Os vários estágios da expressão feminina são abordados nas telas de Miriam de Souza que reproduz em seus trabalhos, a beleza feminina, utilizando muitas cores, brilho, verniz prateado e dourado, além de cristais, para retratar a mulher grávida; mulher mãe; mulher borboleta; a caminhada da mulher em busca dos seus objetivos, metas e sonhos; mulher na lua; mulher sensual, etc.”
FLOR
A coletiva – que além de Dona Miriam conta com a participação das irmãs Miriam Rocha e Lúcia Rocha (que se inspiraram em rosas e na natureza), abre amanhã às 19h, e vai até o fim do mês.



PROSA
“Só o que é superior e superiormente concebido pode alimentar o amor, mas qualquer coisa alimentará o ódio.”
Oscar Wilde
De profundis
VERSO
“A sua mente enfermou-se de lascívia.
Os beijos na boca lhe ficaram.”
Kaváfis
“No 25º ano...”

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Da vida que poderia ter sido

Está lá o gajo muito contente e satisfeito, observando indiferente o próprio umbigo, proeminente como a posição social que alcançou, quando a porta da sala se abre e aparece um belíssimo Anjo iluminado por uma luz que só pode ser divina:
– Que fizestes da tua vida, Fulano de Tal?
O sujeito não consegue desviar o olhar da Assombração e tem tempo apenas de meter o indicador no copo baixo de uísque e ouvir as pedrinhas de gelo batendo-se umas contra as outras, quando já ouve a seqüência do que já lhe parece um interrogatório:
– Não teria sido diferente, se, àquela época, você tivesse escolhido o outro caminho?
Daí que não resta dúvida: ele não apenas está ouvindo vozes, mas também enxerga de onde partem – da figura maciça e imponente de um Anjo Divino e Apocalíptico, como um Gustavo Doré recriado por um George Lucas.
Isso, na sua própria sala, o domingão entrando pelos blindex da varanda fechada. (Não, não, ele reparou: o projetor do home theater está desligado, não é nenhuma pegadinha.)
Ele ainda tem tempo de servir mais uma dose, na dúvida se deveria oferecer o mesmo ao tal Anjo – um 12 anos de boa procedência, o malte, digo – quando o Mensageiro (de Deus? do Demônio?) começa a recitar uns versos:
– “O que poderia ter sido é uma abstração/ Que permanece, perpétua possibilidade,/ Num mundo apenas de especulação./ O que poderia ter sido e o que foi/ Convergem para um só fim, que é sempre presente.”
Essa é fácil – também ele, na juventude, iludia-se com a poesia: são versos de T. S. Eliot para “Burnt Norton”, um dos “Quatro quartetos”.
De uma golada só dá fim e cabo à dose e, com uma coragem que não sabe de onde tirou, ousa responder:
– O que poderia ter sido é uma pergunta comum a nós humanos. Se segue, normalmente muitos anos depois, a uma encruzilhada, momento em que a vida bifurca-se e somos obrigados a uma escolha definitiva.
Foi ilusão de ótica ou ele percebeu um leve tremor de asas, como se o Anjo titubeasse diante da resposta?
Serve-se novamente do Doze Anos, desta vez dois copos, e sem pestanejar, continua:
– Thomas Stearns Eliot, T. S. Eliot, já tinha respondido à questão nos versos iniciais de “Burnt Norton”: “O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado.”
Estende o copo ao Anjo, que já perdeu metade de sua luminosidade feérica, e conclui:
– Sendo assim, vamos deixar de besteiras, o almoço sai já, já, temos alguns convidados importantes e negócios igualmente, a fechar, a brindar, e você pode se integrar à mesa. Desde, é claro, que deixe essas perguntinhas bobas de lado.
*
SCIENCE
A Fapern e a Uern agendaram para o próximo 8 de janeiro, meio-dia, a entrega do Prêmio Fapern de Jornalismo. E aproveitam a ocasião para entregar os certificados do curso de Jornalismo Científico. No Hotel Praia Mar, Ponta Negra.
ESSÊNCIAS
“Essência do tempo” é o nome do novo show do grupo Delicatto programado para duas apresentações: próximos 13 e 14, sempre às 20h no TAM.
O CEI, Centro de Educação Integrada, viabilizou o espetáculo pela Lei Djalma Maranhão, de Incentivo à Cultura.
ESSÊNCIAS II
De Nelson Freire, ex-deputado, a coluna recebe seu mais recente CD, “Essências” – com composições do próprio, de Diógenes da Cunha Lima, de Paulo Davim, e, acreditem, de Ferreira Itajubá.
De Diógenes, “Olhando estrelas”: “O bêbado faz promessas/ Beber é morte lenta/ Mas ele não tem pressa”.
KEEP WALKING
Em tempos de MP4, ipod e que tais, a imprensa deste Ryo Grande almoça, hoje – grátis –, no Hotel Pirâmide da Via Costeira, com Jalusa Barcellos, Jorge de Sá, Jorge Elali, Margaret Rocha e Rodrigo Bassin, todos atores da comédia “Eu só morro se for de diskman”.
A peça tem estréia nacional por aqui, ribeyras do Putigy, dia 7, no Teatro Alberto Maranhão, onde segue ainda nos dias 8 e 9, para depois partir para João Pessoa, dias 10 e 11.
Cristiane Ferreira, autora do espetáculo, também se faz presente.
FOR ALL
Arnaldo Farias vai de forró hoje à noite no Praia Shopping.
CINEMA CULT
Hoje tem “Feliz Natal”, filme de Selton Mello – no Cinemark, 15h10. Vai até quinta. Se liguem.
Na mesma linha (ou seja, filmes “cult” em horários ingratos), tem “Trinta quadros por segundo”, de Ed Radtke – no Moviecom, 17h40. Também rola até quinta-feira.
ANÔNIMO
De um leitor que pediu gentilmente não ter seu nome citado, a coluna recebeu o email: “Sem querer polemizar com o poder constituído, até porque vivemos numa província, começar a gestão com Marina Elali e Cavaleiros do Forró é mostrar a que veio. Cesar Revorêdo vai ter trabalho para reverter esta primeira mostra do novo poder.”
Ainda: “Temo que a Destaque possa assumir o carnaval e perdermos a semente que plantamos com um carnaval mais brasileiro. Como evento, o carnaval será o primeiro teste do novo mandatário da Capitania das Artes”.



PROSA
“Por que escrevo, se não escrevo melhor?”
Fernando Pessoa
Livro do desassossego
VERSO
“assim me
assino”
Haroldo de Campos
“alvéolos”

sábado, 3 de janeiro de 2009

Retrospectiva “Adivinhe quem vem para o café-da-manhã”

A partir de abril, a coluna procurou, em suas próprias palavras, “inovar e pluralizar este espaço”, convidando alguém para escrever, a cada sábado, o que bem lhe desse na telha. Se o objetivo não foi alcançado, com certeza não foi por culpa dos muitos que aceitaram o convite – a quem, mais uma vez, expresso o meu muito obrigado.

ABRIL
“Ah, falo das impressões sobre o imediato, mas falo do que vem de há muito tempo, de temporadas que não são fáceis de recuperá-las na ordem da lembrança. Porque a memória não facilita muito, depois que a gente já deixou pra trás tantas coisas.” João Batista de Morais Neto

“Sabemos que um edifício histórico não sobrevive apenas com o tombamento e, muito menos, com reformas absurdas e irregulares.” Nilberto Gomes e Manú Albuquerque

“O fato é que um meio de criação poderoso como a poesia não precisa ser utilizado para transcrever a realidade. Um poema pode ser uma porta para outro mundo, no qual as sensações dão o tom das experiências e revelam o que não surge à primeira vista; nesse sentido, a poesia é também revelação, não do que vemos todos os dias, mas do que se esconde por trás de nossa consciência.” Ada Lima

MAIO
“Se a revalorização da figura da ‘praça seca’ se justifica diante da necessidade de espaço para absorver a enorme quantidade de pessoas gerada pelas paradas de ônibus, há que se considerar o sombreamento como necessário, devido ao clima de Natal.” Paulo Nobre, Isaías Ribeiro e Marizo Pereira

“filho de um desastre de vozes, como espelho e espanto. cantochão no palco onde fervilho o brilho de uma trilha. onde o meu poema esquarteja no coração da noite que me guia, os segredos dos dias, como o tear de um rascunho de rotas.” Carlos Gurgel

“A efeméride, evento, acontecimento, revolta, movimento, revolução – que nome queira se dar, ou se zombar –, fincou bandeiras que estão incorporadas à vida de todos nós. Não ‘é apenas um retrato na parede.’” Napoleão de Paiva

“Acostumada a ver as mini-saias recém lançadas por Mary Quant, usava raramente em Paris, por causa do frio. Quando saí em Lisboa, ouvi alguns ‘fiu-fiu’ e achei o povo muito careta. Desisti de entrar na igreja, antes que fosse barrada – ah, que saudade de Paris!” Rejane Cardoso

JUNHO
“Na verdade, mesmo, eu me esforço é para desacreditar, pois sei que vivo num paraíso, tão cheio de querubins, de anjos cantores cristalinos, de poetas vaticinadores de um mundo melhor que, às vezes, eu deito e consigo dormir.” Lívio Oliveira

“Todos nós temos, guardada na nossa memória, a recordação de um prato. Basta vasculhar essa memória para relembrar uma comida que preserva ainda aquele sabor inconfundível, que nos conforta a alma.” Soninha Benevides

“Não acredito muito em política do livro criada por lei. Isto é, só por lei. Muito mais se, de alguma forma, esconder por trás dos biombos da vaidade algum tipo de disputa entre poderes. O que se observa na nossa cultura política é que a independência dos poderes, na prática, é a indiferença entre poderes.” Vicente Serejo

“O bom comedor de caranguejo não precisa de colher nem garfo: sai quebrando com os dentes e mãos, sugando a carne na pressão da boca.” Abimael Silva

JULHO
“É o tempo que seleciona os grandes personagens: artistas, heróis, sábios, sobreviverão ou não a depender do significado do que trouxeram para os que ficam.” Ion de Andrade

“Mas o saudosismo é a fórmula ideal para rebuscar o passado em busca de reminiscências de um tempo perdido e que estão penduradas na parede da memória, como um quadro que ano após ano está ali, num registro memográfico, esperando que alguém o olhe, interprete e desenvolva o que ele tem a dizer.” Kolberg Freire

“Não pude compreender todas as suas multitudes. Não aprendi a amar como você amou - ou a ser amado como você foi – compreende? Negou-se-me a chance de aprender com meus erros – pois que a vida apreendeu-me, prematuramente, o professor.” Daniel Dantas

AGOSTO
“Por esse amor eu faria de um tudo, coisas certas e erradas. Cometeria desatinos. Passaria a semana inteira comendo carne vermelha. Jogaria latas de cerveja na rua pela janela do carro. Faria o caminho de Santiago a pé, subiria de joelhos a ladeira da Sé de Olinda, iria ao Juazeiro pagar as promessas que não fiz ao padre Cícero. Deixaria de beber, de fumar, de falar do próximo quando distante.” Márcia Pinheiro

OUTUBRO
“Quem torceu pelo amor de Lindemberg, quem acreditou que ele pudesse sair daquele prédio de mãos dadas com a ex-namorada esqueceu ou reforçou o tipo de cultura em que vivemos. Quem tratou aquele drama passional como se não tivéssemos, neste país e em todo planeta, uma gigantesca estatística de crimes de honra, de certa forma ajudou a puxar o gatilho que vitimou Eloá.” Analba Brazão

NOVEMBRO
“Cânfora, hortelã, um pouco de água e coisas que não sei o nome vão sendo entornadas pelo mexer do pincel. Vê-se Deus quando o frescor toma conta do rosto, parte a parte, depois de cada talhe certeiro da navalha. De repente a sensação de que o tempo não precisa correr naquele instante, como parece não ter corrido para a barbearia em si.” Rodrigo Levino

“Ouvi, menino, uma conversa de meu pai com um homem de quem se dizia ter sido do bando de Lampião. Ele negou, dizendo que não era do bando, pertencera a outro grupo, mas fora emprestado ao famoso Capitão. Depois de muita insistência do meu pai para saber de alguma característica maior de Virgulino, como, por exemplo, do que ele dizia com freqüência, ouvimos: ‘o Capitão sempre dizia, ‘eu quero é que ninguém nunca se esqueça de mim’”. Diógenes da Cunha Lima

“Numa viagem à Disney, com o meu filho, eu paro para comprar uma Minie para Sofia – aí ele pergunta, ‘mãe, para quem você vai levar essa Minie?’. E eu prontamente respondo, ‘lógico que para Sofia’; aí ele diz: ‘Você está ficando louca, Sofia é uma cadela, não é uma criança!’ Aí, não contei conversa: ‘Para mim ela é, mas se você quiser que eu compre um Mickey para você, eu compro’ – e ele: ‘Você pirou de vez.’” Soraya Sobral

“Vovó, em sua cadeira de rodas, com a paciência de uma santa, em vários momentos demonstrava suas emoções e víamos lágrimas brincando em seus olhos.” Lúcia Helena Pereira

DEZEMBRO
“Vocês devem estar cansados de ver tanto forasteiro invadindo sua praia, tanto prédio subindo, tanto carro engarrafando o trânsito, tantos sotaques pelas ruas: carioca, gaúcho, mineiro, paranaense, catarinense; sem falar nos estrangeiros... Mas vocês têm certa culpa pela invasão. Quem mandou tratar tão bem os visitantes?” Isabel Vieira

“Acho que poucos conseguem olhar com orgulho para o passado.” Paulo Laguardia

“O descaso de muitos educadores que atuam na rede pública de ensino tem como escusa principal o baixo salário, porém, nada me garante que um aumento, por mais significativo que seja, traga consigo o compromisso que estes devem ter com a sua profissão.” Cyntia Menezes

“Que nesse Natal só fique mesmo o que é autêntico, que traduza nossa alegria pelo nascimento do Menino, alegria pura como a água da fonte, correndo e cantando uma doce canção ao filho de Maria.” Maria Crinaura Dantas Cavalcanti

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Retrospectiva Prosa & Verso

Na onda de comemorações de fim de Ano, a coluna embarca no Novo repescando um muito do que foi publicado por aqui nos boxes PROSA e VERSO – assim, meio ao acaso, mas cuidando de repetir apenas alguns dos ditos chamados “autores locais”, essa espécie fadada às intempéries do isolamento eterno entre o rio, o mar, e as dunas.
Que 2009 seja bem mais que um show de Marina Elali e os Cavaleiros do Forró – que, hoje, primeiro dia (in)útil do ano é o que nos sobra.


PROSA
“o potiguar vive como quem espera que os melhoramentos de qualquer espécie, os benefícios, o progresso lhe caiam prontos e sem trabalho seu, do alto do céu ou do alto do governo.” Polycarpo Feitosa Vida potyguar

“Demais, não faltarão jornalistas de oposição para afirmar, por dever de ofício, que vamos em regresso e que, daqui a 50 anos, Natal será um monte de ruínas.” Manoel Dantas Natal daqui a 50 anos

“Aqui por qualquer motivo ou sem motivo justificado vão trocando de lugar as estátuas, num verdadeiro turismo de bronzes.” Lauro Pinto Natal que eu vi

“Não se pretende estabelecer um dogma definitivo em assunto urbanístico.” Câmara Cascudo Crônicas de origem

“Gosto das janelas nunca fechadas, mesmo no pior dos temporais.” Rodrigo Levino Dias estranhos

“Algumas regiões desse mundão velho têm a usança de chocalhos desmedidamente graúdos.” Oswaldo Lamartine Encouramento e arreios...

“A verdadeira buchada, do tempo antigo, exige ciência de tempero e quase intuições misteriosas de cálculo.” Câmara Cascudo Dicionário do folclore brasileiro

“Se quereis amar de um amor melhor a nossa terra, minhas senhoras e meus senhores, ide ao sertão.” Eloy de Souza Costumes locais

“Pulando de um mourão da cerca que ia da lavoura até o açude da infância, o mundo parecia meu.” Rodrigo Levino Dias estranhos

“E eu já havia esquecido como é ruim correr atrás de algo que paga o amor com a fuga.” Ada Lima As letras são ingratas...

“As três meninas que me visitam ficaram todo o tempo puxando as reduzidas mini-saias, atraindo, pelo gesto insistente, meu olhar distraído para a palpitante topografia exibida.” Câmara Cascudo Na ronda do tempo

“Afinal eu era um corpo estranho naquele arraial secular de meninos xarias. Era um canguleiro.” Homero Homem Cabra das Rocas

“Recusando-me colaborar com o Satanás blandicioso, sorrio e digo, mentalmente: Vai Baixar Noutro Terreiro, Exu!” Câmara Cascudo Ontem

“Provocar o anjo no homem, significa uma insatisfação contra a ordem do Ser.” Walflan de Queiroz O testamento de Jó

“A puerilidade para uns é ciência para outros.” Câmara Cascudo História da cidade do Natal

“Doze milênios de arte poética foram compendiados num singular aroma, semelhante a jasmim, mel e vinagre.” Alex de Souza Planetas obliterados

VERSO

“Vi um luar de brotos que choravam/ na pele alvo/lustrosa da resina,” Homero Homem “Lua nova”

“Toco-te as formas, no teu corpo hábito/ De onde o meu corpo, terra minha, veio.” Palmyra Wanderley “Deus te salve, Natal!”

“Teu sexo/ haste em que sou flor” Diva Cunha “Teu sexo...”

“e eu ávido cavalo te cavalgo montaria do meu amor” Luís Carlos Guimarães “Noturno”

“o amor não faz pendão” Carlos Gurgel “O amor”

“Gero todas as coisas que giram/ Gero todas as coisas que passam” Iracema Macedo “Ciclo”

“Eu serei um poeta novo/ chegado a um mundo caduco” Dorian Gray Caldas “Canto”

“Quando a seca verde/ assolava o sertão/ meu avô plantava sonhos” Bosco Lopes “Seca verde”

“Eu fiz do Céu azul minha esperança/ E dos astros dourados meu tesouro...” Auta de Souza “Celeste”

“a nós, sonhadores, permitiu-se a fuga/ o devaneio, o itinerário Napoleão de Paiva “a flor do pesar”

“gosto do ponto que parte.” Carlos Gurgel “Mobiliário”

“quero partir levando nos meus braços/ a paisagem que bebo no momento.” Zila Mamede “Partida”

“Se bebes ao mar,/ tens o rio esperando/ só pra te afogar.” Lívio Oliveira “Poucos haikais...”

“Como podes querer que eu me contente/ se o reino todo padece?” Iracema Macedo “Ardil”

“naquele tempo/ eu não conhecia a palavra/ epifania” Adriano de Sousa “Nudez”

“Toda miséria que eu tinha,/ Vivi/ Não sobramos nada.” Alex Nascimento “Miss Otis”

“o artista que se preza/ não prega seu manifesto/ para os chefes mão de rato.” Lucinha Morena “Aos órgãos culturais”

“Será minha palavra a pedra impura/ e a primeira a partir, por atirada.” Jarbas Martins “Soneto da palavra impura”

“Razão, Razão, martelo do Diabo,/ Que fizeste dos meus ídolos?” Esmeraldo Siqueira “Iconoclasta”

“Como é que eu vou alegar inocência/ Diante de um júri de penitenciários?” Alex Nascimento “Perdas e danos”

“Vamos, irmãos, eu que estou reparando, de retrato, esse quadro que se alonga ao longo da parede.” João Lins Caldas “A casa nos conta...”

“Meu Deus, estendei sobre mim tua mão/ E então poderei entender o silêncio” Walflan de Queiroz “Oração”

“A partir de hoje/ meu nome é silêncio.” Ada Lima “Epitáfio”